ápeiron

Autora: Viviane de Melo Bezerra

o homem da caverna era amigo das sombras. passava os dias sonhando com uma fogueira que nunca apagava. outras horas perdia-se em aprender a linguagem de gestos incorporais das sombras na parede. ele conversava com elas, como a falar consigo mesmo e com o mundo. fazia poemas das coisas que via. brincava de adivinhar os formatos escuros, com possíveis objetos que imaginava a existência. seus sonhos eram estranhamente de muita luz. sonhava que podia fazer formas com as sombras pegajosas da parede, como se fossem de barro muito escuro. quando queria ficar sozinho ele fechava os olhos. às vezes fechava-os com força para ver os caleidoscópios dançantes no fundo escuro do avesso dos olhos. era um homem dos sentidos, mas também da imaginação. seu pensamento era limitado pelo pouco que conhecia e ilimitado pelo muito que criava. um dia, este homem resolveu sair da caverna. algo inexplicável lhe fez aflorar uma curiosidade, vontade de alargar as sensações. começou por querer tocar as sombras, depois o fogo. começou pela dor. esticava cada vez mais o corpo. algo seu doía. a falta. mas lá fora a luz era forte demais. a luz ofuscava os sentidos. aos poucos percebeu que ela descortinava as coisas, emprestava cores, revelava, a luz era como a verdade. acomodando os olhos ele percebeu que existiam muitas verdades. era por causa do sol. dependendo de onde se olhava era possível ver cores diferentes. jogo de luzes. o que era azul para ele era diferente do azul dos outros. o dele era parecido com o voo das aves. o verde era como tocar os pés descalços na grama fofa do jardim. o amarelo era visível quando algum mormaço lhe tocava a pele a arder de sensações. o lilás era toda uma flor a se abrir de cheiros e doçura de planta. a fogueira que deixara para trás na distante caverna era como um vermelho muito vivo, queimaduras muito profundas que não se acabavam dentro das ideias. a luz da verdade tocou seus olhos e ele acostumou-se. mas eram tantas verdades que já não podia carregá-las na pele. ele olhava para os reflexos das pessoas na água fresca de um lago e depois olhava para elas, e mergulhava na mais profunda verdade, a de saber que não se podia conhecê-las. diziam que os que viam as sombras eram incapazes de ver o outro, viam apenas aparências, simulacros. mas, mesmo banhados em luz, ninguém via ninguém. andavam a se esbarrar na rua, insensíveis ao que a natureza e a vida ofereciam. ninguém jogava luz na própria dor. nunca se sabe. talvez a essência das coisas fosse exatamente isso de não saber. o homem chorou. e o sol iluminou aquelas lágrimas feitas talvez do que filósofos achavam ser a origem das coisas. tudo vem da água. outros achavam que era do fogo. o homem pensou que talvez fosse do silêncio. por isso ele retornou à caverna. sentou no mesmo lugar de antes, deleitado a contemplar a superfície do silêncio nas paredes rochosas de sua caverna. o homem dançou embalado por aquele silêncio, d’onde estalactites imensas se formavam devagar, a apontar para dentro. 

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Viviane de Melo Bezerra nasceu em 21/08/1987 na cidade de Campina Grande na Paraíba. Veio ainda pequena para a zona leste de São Paulo. Foi uma menina de silêncios, livros e gatos. Começou a escrever tarde, por medo. É formada em Letras, trabalha em escola e ama falar de poesia com crianças.

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