silêncio disfarçado de prosa

Autor: Viviane de Melo Bezerra

 

queria fugir de mim mesma para poder espreitar-me de longe. espreitar a vida e o mundo sem o contágio do meu próprio eu. ser outro. será possível ser outro? é possível estar longe estando tão perto? será esta a verdadeira proximidade? algo dentro de mim exige que se escreva, mas não sei escrever. preciso ser outro. preciso encarnar-me em alguém que possua palavras explodindo na pele como acne. que tenha canções e versos encravados. que tenha se aprisionado em dura sentença. preciso encontrar um espaço, um nicho em meio às cinzas de alguém que já se incendiou com palavras incandescentes. mas o que verdadeiramente acontece é que permaneço todos os dias com os dedos suspensos de silêncio, veias de vidro que não partem, passo as horas fugindo da fuga. e a tela continua branca, enquanto a vida me arrebata para ser-me cada vez mais. e saio todos os dias de manhãzinha, de cabeça erguida, vivendo, exercendo o mais belo fracasso da tela desértica, uma máscara seca e sem expressão a me olhar por trás dos olhos.

 

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Viviane de Melo Bezerra nasceu em Campina Grande (PB). Ainda pequena, veio morar na zona leste da cidade de São Paulo. Foi uma menina de silêncios, livros e gatos. Começou a escrever tarde, por medo. É formada em Letras, atualmente trabalha em escola e se dedica a falar de poesia com as crianças. Teve um poema publicado na antologia do Concurso Nacional de Novos Poetas (Poesia Livre 2017). Da escrita é apenas uma amadora.

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