Esperando na varanda

Autor: Vicente Geraldo de Melo Neto_

 

 

O Manoel chegou em casa depois do trabalho, encontrando apenas um bilhete debaixo do jarro com algumas flores murchas. Enquanto lia, sentado no sofá, um suor frio escorria pelo seu rosto cansado e lívido. Dirigindo-se ao quarto, ainda sem acreditar, abriu o guarda-roupa apenas para confirmar o óbvio. Tudo vazio. Somente uma blusa amarela, gasta pelo tempo, continuava pendurada no cabide de madeira. Além de um vidro de perfume vazio que jazia numa das gavetas, junto a algumas bolinhas de naftalina. Apertando o bilhete entre os dedos, o homem derramou algumas lágrimas discretas.

A seguir, depois de fechar o guarda-roupa, Manoel entrou no banheiro. Ainda meio atordoado, mijou, lavou as mãos e o rosto. Na pia de mármore, com a torneira ainda respingando, encontrou um batom vermelho. Sem pestanejar, depois de olhá-lo fixamente, atirou o objeto cilíndrico na lixeira. Porém, em nenhum momento o homem demonstrara raiva, ódio ou rancor. Apenas decepção e tristeza.

Com a televisão ligada, sem prestar atenção no programa, Manoel leu e releu várias vezes o bilhete. Mais tarde, após um banho quente, deitou-se na cama fria, ao lado do travesseiro vazio. Olhando para o teto, onde uma lagartixa vigiava a mosca que chocava-se com lâmpada, passou a imaginar um motivo da esposa abandoná-lo. Afinal de contas eles viviam bem, em harmonia, sem nenhuma briga, sem nenhum conflito, sem nenhuma crise de ciúmes. Ou seja, quase cinco anos de um casamento sem conturbações. Além do mais, cumprindo o que prometera, ele parara de beber. A única coisa que faltava ao casal, e a mulher vivia cobrando, era a presença de um filho para alegrar a casa. Mas antes do casamento eles não combinaram que não teriam filhos? Será que ela se esquecera disso?

No outro dia Manoel acordou assustado, procurando em vão pela esposa ao lado. Agindo como se ela tivesse viajado, e em breve voltaria, andou de um lado para o outro procurando alguma coisa, sem ao menos saber o que. Seria a pasta de dente, o coador de café, uma toalha de rosto, ou mesmo o seu paletó? Literalmente, tudo parecia perdido dentro de casa. Finalmente, depois de muito custo, o homem dirigiu-se até à padaria da esquina para fazer desjejum, seguindo depois para a repartição.             

À noite Manoel saiu para beber, já que agora não tinha mais que dar satisfação a ninguém. Enquanto caminhava vinha-lhe uma impressão de que as pessoas, olhando pelas janelas, riam de sua situação de abandonado. No entanto, em passos firmes, de cabeça erguida, continuou a sua jornada disposto a se embriagar, compensando o ano de abstemia.  

No bar quase vazio, sem encontrar nenhum amigo, Manoel começou a beber acompanhado apenas de sua solidão. O cinzeiro encontrava-se lotado de guimbas, pois  acendia um cigarro atrás do outro. Ao final de cada cerveja, seguida de uma dose de cachaça, lia e relia o bilhete de despedida, sem prestar atenção nos dois velhos que jogavam uma monótona partida de sinuca. E muito menos no dono do bar, que comentava com um rapaz imberbe sobre o último resultado do jogo do bicho.

Passado exatamente um mês de uma espera em vão, como todos os dias, ao sair do bar, Manoel desceu a rua íngreme e escura. Apenas a luz pálida da lua refletia em seu rosto de barba por fazer. Já quase de madrugada, com a cidade praticamente adormecida, em passos trôpegos de ébrio, o homem desceu a ladeira com dificuldades, carregando o paletó no ombro. Às vezes ele chutava um monte de lixo, que exalava um odor fétido, para extravasar a tristeza. Em certo momento, debaixo de um poste com a lâmpada quebrada, parou para mijar. De olhos fechados, ficou ouvindo o barulho do líquido quente contra a parede do muro, que descia pelas rachaduras da calçada, formando desenhos ininteligíveis no asfalto. Um viatura de polícia passou devagar, mas não parou Os policiais simplesmente ignoraram o bêbado noctívago. Será que compreenderam a sua dor? Apenas um deles sorriu das estripulias etílicas do homem.

No portão, a chave girou na fechadura com muita dificuldade, devido à embriaguez e a escuridão. Finalmente, depois de abri-lo, Manoel soltou um palavrão de alívio. O gato preto, que caminhava sonolento por cima do muro, saiu assustado, em disparada, rumo ao quintal.

Sem ao menos entrar na casa de um silêncio lúgubre, Manoel sentou-se na cadeira de vime que ficava na varanda. Ao lado, tomada apenas por algumas folhas que caíram das árvores, a outra cadeira gêmea continuava vazia. Mais uma vez, como num ato mecânico, o homem pegou o bilhete, agora todo amarrotado, que encontrava-se no bolso do paletó puído e sujo. Enquanto lia e relia várias vezes, como no primeiro dia, algumas lágrimas brotaram de seus olhos miúdos e cansados pelo sofrimento do abandono. Como amava aquela mulher.

Mais uma vez Manoel acordou assustado, com os primeiros raios solares banhando seu rosto sulcado. Ao tentar se levantar, sentiu uma forte dor no peito. A cabeça, com as têmporas latejando, parecia cravada de espinhos. Pálido, com as mãos trêmulas, recostou-se na cadeira. Uma febre parecia consumir seu corpo fragilizado pela tristeza, pelo álcool e pela falta de alimentação. Fechou os olhos devagar. Ao seu lado, na outra cadeira, o gato preto ronronava clamando pelo carinho de seu dono. No meio do quintal, junto a um pé de roseira, o bilhete todo amarrotado jazia no chão jogado pelo vento da madrugada gélida.     

 

 

*

Vicente de Melo nasceu em Uberaba-MG, mas cresceu em Brasília. Professor e escritor, venceu o “Prêmio SESC de Contos Machado de Assis”, edição 2005. Publicou as coletâneas de contos “Contos Federais” e “Vidas Vazias”, além do romance “A Saga de Um Candango”, que relata a história não oficial da construção de Brasília. Além disso, participou de várias coletâneas com trabalhos individuais.

BACK