Oscar Wilde e Rubén Darío, cúmplices

Autora:  Stella Maria Ferreira

OSCAR WILDE E RUBÉN DARÍO, CÚMPLICES
OSCAR WILDE AND RUBÉN DARÍO, ACCCOMPLICES

Resumo: As letras que se seguem cumprem homenagear e ressaltar a comunhão
de temas e ideias que foram característica ímpar no cenário decadentista. Aqui dois
expoentes de final de século XIX se reúnem por um labiríntico instante de
encantamento.

Abstract: The following words aim at honoring and highting the communion of
themes and ideas which were singular trait in the Decadentist scenario. Right here two
of the most paramount artists of the fin-de- siècle XIX meet for an amazing instant of
enchantment.

Palavras-Chave: comunhão, labirinto, encanto
Key words: communion, maze, enchantment

“Sinto vibrar em mim o tropel de paixões
De uma nave sofrendo;
O bom vento, a tormenta e suas convulsões
Sobre o abismo horrendo
Me embalam.
Outra vez na calma ela é o reflexo
De meu ser perplexo”.
(Baudelaire, 2002)

As palavras de Charles Baudelaire, em seu As flores do mal emolduram o
caráter pictórico impresso na letra que tanto encantou os decadentistas e modelou as
descrições de lugares e personagens, acentuando a atmosfera de, ora extravagância, ora
de angústia ou de sonho. A partir da cor tem-se acesso a uma nova disposição das
pessoas e dos objetos. A escolha de nuances liga-se à afetividade e a cada matiz
correspondem temas ou situações que vibram em consonância com a trama. Paleta em
mão, discípulos da pintura baudelairiana da vida moderna, em meio a cegueira do caos e
da desumanização, Oscar Wilde e Rubén Darío revelam-se precursores na aventura de
distribuição das cores que acontecem na memória ou na imaginação do já visto ou do
desejado. Olhares, portanto, reveladores de uma outra beleza, encoberta pelo
sonambulismo da tela londrina e americana central; olhares auditivos, gustativos, táteis.
Superlativos no registro de comportamentos, descreveram o desenho das atividades que
anulavam a distinção em favor da uniformização – engano de felicidade. Modernos,
divisaram no sombreamento, realce perfeito para mostrar um consenso manipulado que
no preço do progresso dissolvia e calava a exploração de formas e linhas: “de fato, aos
olhos de Baudelaire, o pintor moderno por excelência é aquele que, na hora em que o
mundo inteiro vai dormir, se põe ao trabalho e o transfigura. Transfiguração que não é
anulação do real, mas o difícil jogo entre a verdade do real e o exercício da liberdade”
(FOUCAULT,2005, p. 343). Como o mestre francês, quiseram considerar o colorido
elíptico, sujeito a cálculos errôneos, inversões, falhas de apreciação, desvios. Quiseram
esse neutro “que lambuza e mancha” (BARTHES, 2003, p.105). Estabilidade e clareza
vacilantes reiteram o misterioso, o inacessível, compondo as sonoridades verbais. Papel
de destaque na arte do simulacro, a cor e seu detalhamento garantem o efeito hipnótico
do turbilhão dos sentidos: “(…)a cor é, na realidade, por si mesma, uma presença mística
sobre as coisas e assemelha-se a uma espécie de sentinela(…)” (WILDE, 2003, p. 1044).
As combinações emprestaram uma colorida voz às letras silenciosas, num processo de
reconstrução da captura de luz, mais desconcertante, pessoal. Assim, cada palavra
escolhida lançaria feixes multicores no cenário, no vestuário e no comportamento das
personagens. Esta alquimia, fruto de um olhar camaleônico, viria a desvelar um texto
outro, que re-afirmaria a beleza, a juventude, o vigor, o infinito. Plasticidade produtora
de constantes miragens nas letras. Suave ou abruptamente, o leitor recebe séries de
‘pinturas’ que facilitam a imersão numa trama que contradiria a dualidade preto/branco,
luz/treva. Revelar-se- ia, então, não o limitado, o controlado, mas o inatingível.

O nicaraguense conhecera Wilde pelo amigo em comum, Gómez Carrillo, em
um bar chamado Calisaya e o irlandês causou impressão profunda. Disse, mais tarde,
Darío em sua autobiografia que raramente havia encontrado em alguém tamanha
distinção, cultura mais elegante e tal tom de civilidade e que não acreditaria que havia
há pouco saído da prisão. Em seu livro Peregrinaciones-Paris, de 1901, Darío inclui
texto acerca da morte de Wilde, destacando o colorido de sua escrita e o esmaecido
brilho em seus olhos no final de seus dias. Os amigos que o mimavam nos dias de
triunfo haviam-no abandonado nos dias de infortúnio. Encantado pela escrita wildiana,
este ensaísta, crítico sócio-político e poeta traçou com o amigo das Artes uma nova
ordem, presenteando os leitores. Aqui, tendo nas cores amarela – transgressora – e azul
– êxtase de emoção – mote para um périplo simbólico rumo à uma região de múltiplas
verdades

Wilde tinha um forte sentimento por esfinges e se esmerou na confecção deste
texto alucinógeno. Trabalhou no poema A esfinge desde a época de Oxford para
termina-lo em Paris em 1883 (tendo a publicação apenas ocorrido em 1894). O poema
traz o embrionário sentimento do efeito avassalador que teria mais tarde Á Rebours de
Huysmans. E como a vida imita a arte, Wilde conheceria mais tarde, Mrs Ernest
Leverson, “a young woman who hid intelligence and a tender heart under a frivolous
manner(…), a link with the world of Proust: her sister and brother-in- law(…)were great
friends of Proust(…)her wit conditioned her ideally to respond to Wilde’s light-
heartedness, his particular form of gaiety iluminated by genius” 1 . De Ada – e para ela -,
diz Wilde: “ You are one of those who, in art, are always, by intuition, behind the
scenes, so you see how natural art is(…)” 2 . E ela diz dele: “I had been told that he was
rather like a giant with the wings of a Brazilian butterfly and was not disappointed. But
I thought him far more like a Roman Emperor who should have lived at the Pavillion at
Brighton with George IV.” 3 A trama se insinua no ritmo do nictêmero, com a
‘presença’ de dois personagens. Meio humana, meio animal – dotada da faculdade de
pensar (JULIAN, 1971, p.165) “Intangível e quieta não se ergue nem faz o menor
movimento” (WILDE, 2003, p.958), mas vem, porém, aninhar-se junto a um estudante.
Envolto no profundo e convulsivo silêncio da noite, o jovem é enfeitiçado pelo olhar –
de fantásticos luares -, o sorriso enigmático e a fisionomia irradiando tranquilidade.
Inebriado, ele faz o convite: “Aproxima-te, encantadora e lânguida Esfinge minha, vem
colocar tua cabeça sobre meu peito e deixa-me passar uma mão acariciadora por teu
peito e examinar teu corpo mosqueado como o de um lince.” (WILDE, 2003, p. 958).
Com a implícita promessa de um ideal – penetrar o desconhecido -, ávido por decifrar
segredos, experimentar mais do que ‘conhecer’, o jovem é devorado por dentro pela
criatura: “(…)vem estirar-te a meus pés, Esfinge fantástica, e conta-me tuas
recordações(…)” (WILDE, 2003,p.959), e é levado a lugares distantes em tempos
remotos: “mil séculos lentos te pertencem quando eu, em troca, vi apenas vinte estios
despojarem-se de sua verde libré para vestir a libré multicolorida do outono…”
(WILDE, 2003, p.958). A cabeça feminina num corpo felino com garras que prendem
e ferem cruelmente levam o protagonista a uma ‘viagem’ interior – sem movimento
externo (bem ao gosto de Des Esseintes) – doce martírio. Só o medo e o terror
poderiam, com ela, produzir o prazer que o jovem estava por experimentar. Horror e
deleite. O paradoxo se instala. A excepcional ação dos órgãos dos sentidos permitiu que
ele interagisse com outros mundos e um excepcional aperfeiçoamento virá ainda. O
jovem é outros. E se assim é, o leitor de A Esfinge é também ‘arrastado’ para essa vida
‘mais verdadeira’ que Wilde com tal facilidade verbal propõe. O jovem ansiava por
tornar-se decifrador da linguagem secreta do universo, “ da Beleza e da Verdade
escondida que ele trará à luz(…) compreende-se(…)por que se deve intensificar a
experiência lá onde ela sempre pareceu tabu, nos abismos do mal e do desregramento,
onde podem brotar as aproximações mais fecundas e violentas, onde as alucinações
serão mais reveladoras que alhures(…)?”(ECO, 2004,p.349). Que tivesse ele as
respostas agora! O pacto é silencioso, mas ele sabe que ao chamar a figura alada, estaria
a ela entregando algo de si. Aceita, sem delongas. A peregrinação virtual o leva a
lugares e tempos remotos: “(…)Fala-me do labirinto que servia de estábulo ao touro de
dupla forma(…)” (WILDE, 2003, p.959). O sutil sorriso da figura instiga a curiosidade
do jovem quanto a seus amores. Teria a figura amado ou só existira para provocar fortes
e devastadoras paixões? Teria esperado que todos os véus deixassem de ser para ela
mistério para que dominasse os segredos dos homens? O silêncio aterrador leva o
protagonista a um clímax: “(…)Vai-te daqui; estou cansado de teus gestos de languidez,
cansado de teu olhar sempre fixo de tua sonolenta magnificência…”
(WILDE,2003,p.964). Julgando fazer o percurso dela, na verdade, enreda-se nas teias de
sua mente. A Esfinge, espelho de seu inconsciente. Até então parece não ter-se
apercebido de sua própria existência. A figura sedutora provocara o sonho: “(…)refúgio
para todos os insatisfeitos com a civilização moderna(…)” (MANGUEL,2003,p.402).
As indagações do jovem vão, assim, da fascinação (“Como é sutil teu sorriso! Será que
não amaste a ninguém?”-WILDE, 2003, p.961) até o súbito terror (porque se chegasse a
decifrar os segredos da esfinge um fim trágico poderia encontrá-lo). Declara-se farto do
hálito “pesado e horrível”, dos olhos que são “como luas fantásticas que tremem em um
lago de águas paradas”, da língua que “ é como uma serpente escarlate que baila ao som
de árias fantasmais(…)”, sente o pulso deste ser que “ bate em melodias envenenadas” e
vê na negra boca “ o buraco que deixa uma tocha ou umas brasas sobre uns tapetes
sarracenos(…)Vai-te daqui, repugnante mistério(…)” (WILDE,2003,p. 964/965). A
presença feminina, a rigor, exaspera. De início encantadora, capaz de enlouquecer com
um olhar: “(…) Sua face era como o mosto que enche uma cuba de vinho novo. Os
mares nada poderiam acrescentar à perfeição de seus olhos de safira(…)” (WILDE,
2003,p.961); mostra-se fatal, cujo prazer não se encontra na morte dos amantes, mas no
domínio sobre suas vidas: “Bem sei que teus amantes não morreram. Voltaram a
levantar-se. Ouvirão tua voz. Agitarão ruidosamente seus címbalos. Regozijar-se-
ão(…)” (WILDE, 2003, p.963). O súbito temor de se ver para sempre coberto por suas
asas e inebriado por seu perfume o desespera. O poema traz a adormecida Salomé
decadentista. O jovem parece enfastiado do real, quer sentir mais do que conhecer e à
dama do crepúsculo interessa sobremaneira este verde coração. A força feminina, que
mergulha sem temor neste mundo dominado pela razão masculina, impulsiona o jovem.
A Esfinge apresenta a lição ensinada ao filho de Dédalo: o desafio por si só, a tentativa
de desprender-se de um corpo limitado no espaço e no tempo é a força motriz do
indivíduo. A ideia lançada no ar é mais uma vez feminina. O estudante não sabe se
trazida pela fugidia “Fúria de cabeleira de serpentes, recém saída do Inferno” (WILDE,
2003, p.964), ou por um fantasma criminoso tão desprovido de canto como de voz, que
através das cortinas da noite, vendo arder intensamente sua vela, chamou-a e convidou-a
a entrar e ainda mais adiante: “Tornas aquilo em que creio uma estúpida fraude,
despertas obscenos sonhos de vida sensual(…)” (WILDE, 2003, p.965). Impacto
revelador da escuta de um não canto, de uma não voz desta serpente para quem ele se
dirige assim, “despertas em mim bestiais sensações, fazes de mim aquilo que eu não
quereria ser.” (WILDE, 2003,p.965). Semelhança com o jovem Dorian Gray encantado
pela voz de Lorde Henry e rendido a sua voz interior: “tornamo-nos esfinges, ainda que
falsas, até chegarmos ao ponto de já não sabermos quem somos. Porque, de resto, nós o
que somos é esfinges falsas e não sabemos o que somos realmente(…)Ter todos os
gestos e todas a atitudes de qualquer coisa que nem somos(…)” (PESSOA, 2006, p.52-
53). Contagem de anos não cronológica que faria dele, daí em diante, um indivíduo
diferente. O ‘encontro’ com seus desejos ocultos fez com que envelhecesse, tal qual o
retrato – só que não por fora, mas por dentro. A experiência enriquecedora faz com o
que o jovem respire o ar robusto de que nos fala Nietzsche em Why I am so wise:

He who knows how to breathe the air of my writings knows that
it is an air of the heights, a robust air. One has to be made for it,
otherwise there is no small danger one will catch a cold. The ice
is near, the solitude is terrible – but how peacefully all things lie
in the light! How freely one breathes! How much one feels
beneath one! (NIETZSCHE, 2004) 4 .

O calor evocado pela figura do deserto contrasta com o gelo aterrador da vivência solitária dos muitos mundos. Nietzsche, porém, aponta para uma liberdade interna iluminada, a que o jovem possivelmente perceberá ter alcançado quando tiver pleno entendimento do que se passou. No momento, ele sente apenas um hálito pesado e sobre sua fronte sente a umidade dos terríveis orvalhos da noite e da morte: A visão que se tem a partir do poema é a da confusão do infinito labirinto sem muros: o deserto, de onde nunca sairá, tão logo o olfato absorva o odor dessa desconfortável liberdade. E, implícita, sempre insinuante, a cor amarela, no amarelado das areias, da luz do Sol refletida. A princípio parece-lhe retirada a paz, perceberá, certamente, mais tarde, que a inquietude será de agora em diante sua fiel companheira e a única que fará com que sua personalidade se desenvolva. Mais uma vez o sombrio apresenta-se como esperança de revelação. A nebulosidade, as incertezas trazidas pela figura da Esfinge é traduzida como descoberta e o estudante libera seus ‘outros’, permitindo-se uma vivência mais completa, mesmo no espaço reduzido de seu quarto, durante mais tempo do que pensava imaginar. A treva que é luz seria importante mote decadentista, assim como os temasexóticos. A estranha gata achava-se estendida sobre um tapete chinês e leva o estudante, como pelo ar, a visitas pelas terras orientais, observando faraós, deuses assírios, sacerdotes em templos ricamente decorados, mercadores em navios multicoloridos, beduínos, caravanas errantes de negros de ar solene. Mundos são desvelados para ele e nele. Fica-nos a dúvida sobre o real efeito propiciador das divagações do estudante:
haveria mesmo esta figura ali com ele, estátua, imóvel, ou já isto também seria resultado das leituras noturnas que fazia? Se considerássemos esta última opção, Wilde estaria mais uma vez atestando o valor da leitura para a imaginação e a figura alada seria mera projeção do desejo de liberdade do jovem. Teria mesmo tal figura participado do episódio ou seria semente da musa decadentista, provocadora de loucos amores,sedutora que enfeitiça duros ouvidos e reconstrói companheiros despedaçados, despertando paixões até em pedras insensíveis. A movimentação interna é tal que se sobrepõe à imobilidade externa. Mais uma vez, lembramos À Rebours com Des Esseintes ‘viajando’ para Londres, sentado em um café à espera do trem. Tamanha experimentação anulou sua efetiva ida a capital inglesa; seu desejo estava satisfeito, por isso, pode retornar à casa. Esta virtualidade já atestaria a opção pela imobilidade ao invés da ação. O movimento do corpo estava associado por demais a produção, ao lucro e isso só se mostrava prejudicial ao exercício do pensamento, que precisava do ócio. A esfinge, assim, deitada, preguiçosa, poderia ser símbolo propulsor de que necessitava o estudante para ser o que queria. O resultado da intensa noite para o estudante não foi de tranquilidade. Havia agora a iminência de tomada de atitude. Não poderia ignorar a
descoberta das insatisfações de sua vida. Seu inconsciente balançara as correntes da consciência reguladora. Teria que fazer agora sua escolha, a aurora já despontava “em torno dos campanários cinzentos que ostentam um quadrante dourado, e a chuva corre sobre cada vitral talhado como um diamante, e suas lágrimas empanam o dia já descolorido” (WILDE, 2003, p.964). A ação é sempre a opção mais fácil por ser a mais contínua dizia Wilde em O crítico como artista; é refúgio das pessoas submetidas; é cegueira que está em desacordo com a finalidade primeira da vida; por fim, é a base da falta de imaginação. As muitas vozes silenciam de súbito, era hora da oferta final – uma
existência modificada, pronta para a ação desmedida dos sentidos. No final, a ação da consciência parece retrai-lo. Acreditamos, no entanto, que a experiência sensorial foi de tamanha intensidade que deixara marcas doloridas em seu corpo, até então intocado pela força artística. A ‘viagem’ por estes mundos de um passado que parecia ser seu
presente, da vida de outros que não era mais do que a sua vida não vivida, emboscada no inconsciente exigiam uma resposta. Mais adiante, verificaremos que Darío juntou-se ao irlandês com sua personagem vivendo situação similar. Como a esfinge, viveriam eternamente. A questão era: viveria o estudante repetido sentimento de remorso ou
repetido gozo pela realização de toda uma existência de sonho? O temor deste novo era normal. A serenidade da acomodação ainda exercia fascínio. No entanto, o poder do texto já invadira definitivamente sua alma. A imaginação exigia uma entrega e ele sabia que não poderia voltar atrás. Não porque lhe seria proibido, mas porque lhe seria
impossível, após experimentar tal liberdade. Descolara-se das asas da esfinge, caíra no abismo para alçar o próprio voo. Disse Wilde em Uma mulher sem importância que em uma mulher que revela sua idade, nunca se deveria confiar porque seria capaz de contar- lhe qualquer coisa. Pois bem, ao perambular com o estudante por todas as suas idades,
revela a ele o contrassenso, a rebeldia. O ‘bom-senso’ era ‘privilégio’ do mundo masculino. Parece que ela dizia a ele as mesmas palavras de Nietzsche no aforismo 9 de A gaia ciência:

Sim, minha ventura quer fazer felicidade; é isso que deseja toda a
ventura! Quereis colher as minhas rosas? Baixai-vos então, escondei-vos, Entre
rochas e espinheiros, E lambei muitas vezes os dedos! Pois a minha ventura é
maligna! Pois a minha ventura é pérfida! Quereis mesmo colher as minhas
rosas? (NIETZSCHE, 2004).

Pensamos que a escolha já fora feita. Tornara-se cego, surdo e mudo para este
real insatisfatório e estrangeiro, cabeça perdida, digere a vida como a um livro.

Com uma surpreendente cumplicidade, o poeta e diplomata nicaraguense, Rúben
Darío, em seu Azul, abre aos leitores as portas para o que chamou de um romance em
prosa A una Estrella (publicado primeiramente por Ernesto Mejía Sánchez, em 1890),
evocando a mesma atmosfera de mistério e desejo. Assim como o estudante wildiano,
no calor da negra noche, uma figura brilhante visita um jovem poeta como Princesa del
divino imperio azul em seu cuarto de trabajo para dar-lhe “tortura” e, nas palavras do
jovem “para dejarme casi desolado el pobre jardín de mi ilusión(…)Tu voz me sonó a
hierro y te escuché temblando, porque tu palavra era cortante y fría y caía como un
hacha.” 5 . A partir daí, o poeta descreve cena similar à de Wilde. A Princesa desnuda
para o poeta um mundo de sonho, convidando-o a uma viagem interior que, como não
poderia deixar de ser, inspiraria palavras de uma cor nunca antes vivida. Diz o jovem:
“me hablaste de camino de la Gloria, donde hay que andar descalzo sobre cambroneras
y abrojos; y desnudo, bajo una eterna granizada; y a oscuras, cerca de hondos abismos,
llenos de sombra como la muerte. Me hablaste del vergel Amor, donde es casi
imposible cortar una rosa sin morir, porque es rara la flor en que no anida un áspid. Y
me dijiste de la terrible y muda esfinge de bronce que está a la entrada de la tumba. Yo
estaba espantado, porque la gloria me había atraído, con su hermosa palma en la mano,
y el Amor me llenaba con su embriaguez, y la vida era para mí encantadora y alegre
como la ven las flores y los pájaros.”(p. 102) 6 . Não percebemos no poeta o mesmo
horror que o estudante em Wilde insistia em pontuar. Ele já parece mais “rendido” ao
destino que lhe se descortinava.

A Princesa e a Esfinge se encontram. Uma, vinda do império azul, gélida, de
lábios luminosos, apaixonante. A outra, amarela, revela sentimentos aterradores, que se
querem escondidos, pois quando descobertos levam a um caminho sem volta. Ambas
“destroem”. A Princesa que quando “miraste con tu mirada inefable y
(…)sonreíste(…)(p.102) 7 congelou seu coração para sempre, não deixando espaço para
outra paixão. A Esfinge mostra um lado obscuro da alma do jovem que, uma vez,
libertado, nunca mais o deixaria. O jovem poeta diz à sua “estrella”: “queria contarte un
poema sideral que tú pudieras oír(…) 8 . O estudante de Wilde pede que seu algoz se
afaste, no entanto, o desejo de ser outro já se apoderara dele. Duas imagens femininas
que, no silêncio da noite, propõem mudança de destino. O momento é decisivo e não há
como voltar ao que eram antes.

Wilde e Darío, operaram pelo texto um auto-enfeitiçamento, tornando-se ambos
‘prisioneiros’ desta iluminação. Ditosos grilhões aceitos porque rejeitaram viver no
pesadelo de arquétipos. As personagens destacam a reviravolta que trouxe o
Decadentismo para a cena artística. Não há como não aderir a esta nova linguagem
sedutora, múltipla. Pactua Nietzsche deste instante revelador: “(…)Quando, numa
tentativa enérgica de fitar de frente o Sol, nos desviamos ofuscados, surgem diante dos
olhos, como uma espécie de remédio, manchas escuras: inversamente, as luminosas
aparições dos heróis de Sófocles, em suma, o apolíneo da máscara, são produtos
necessários de um olhar no que há de mais íntimo e horroroso na natureza, como que
manchas luminosas para curar a vista ferida pela morte medonha” (NIETZSCHE, 2001,
p. 63). A cor ‘grita’ clamando por liberdade para enlaçar os sentidos e começar a valsa.
O trabalho é árduo, avança lentamente, o sofrimento é voluntário e, por isso,
compensador. Eles sabem que não é fácil ultrapassar a fronteira da consciência. A
resposta está no acolhimento estético de todas as coisas: “discernir a beleza de uma
coisa é o mais alto ponto a que podemos alcançar. Até mesmo um senso de cor é mais
importante no desenvolvimento do indivíduo do que um senso de bem e de mal”
(WILDE, 2003,p.1163).

Ao toque destes artistas, as palavras sucumbiam, descansavam a seus pés,
encantadas como a possibilidade de expansão a elas oferecida. Obras de arte verbais
foram oferecidas por estes Midas do século XIX que deixaram marcas de incontestável
paixão pela vida. O sonho que sonharam juntos é também nosso sonho e nutrem ainda e
sempre nossas linhas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:

BARTHES, Roland. O neutro. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

BAUDELAIRE, Charles. As flores do mal. São Paulo: Martin Claret, 2002.

DARÍO, Rubén. Azul. Bogotá: Biblioteca Hispanoamericana.

ECO, Umberto. História da Beleza. Rio de Janeiro:Record, 2004.

FOUCAULT, Michel. Arqueologia das Ciências e História dos sistemas de
pensamento. Org.:Manoel Barros da Motta, Coleção Ditos e Escritos II, 2ª ed., Rio de
Janeiro: Editora Forense Universitária Ltda., 2005.

JULLIAN, Philippe. Oscar Wilde. London: Granada Publishing Limited, 1971.

MANGUEL, Alberto; GUADALUPI, Gianni. Dicionário dos lugares imaginários. São
Paulo: Companhia das Letras, 2003.

NIETZSCHE, Friedrich. Why I am so wise. London: Penguin Books, 2004.
_____________. A gaia ciência. São Paulo:Martin Claret, 2004.

PESSOA, Fernando. Livro do desassossego. Lisboa: Assírio&Alvim, 2006.

WILDE, Oscar. Obra Completa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 2003.

NOTAS DE TRADUÇÃO (do autor):

1. Uma jovem mulher que escondia inteligência e um coração terno sob comportamento
frívolo (…), um elo com o mundo de Proust: sua irmã e seu cunhado (…) foram grandes
amigos de Proust (…) sua perspicácia a condicionava idealmente para responder à forma
calorosa de Wilde, sua forma particular de alegria iluminada de gênio.
2. Vocè é um dos que, na arte, está sempre, por intuição, nos bastidores e vê como a arte
é natural.
3. Disseram-me que ele era como um gigante com as asas de uma borboleta brasileira e
não fiquei desapontada. No entanto, eu o vi mais como um Imperador Romano que
devia ter morado no Pavillion, em Brighton com George IV.
4. Aquele que sabe respirar os ares da minha escrita sabe que é ar das alturas, ar robusto.
Tem que se ser feito para ele, ou há o perigo de resfriar-se. O gelo está próximo, a
solidão é terrível, mas como tudo jaz em paz na luz. Com que liberdade se respira! O
quanto se pode sentir no alto.
5. A noite escura…Princesa do divino império azul…estúdio de trabalho…para deixar-me
desolado no pobre jardim de minha ilusão(…)Tua voz me soou como ferro e te escutei a
tremer porque tua palavra era cortante e fria e caía como um machado.
6. Falava-me do caminho da Glória, onde se poderia andar descalço sobre e nu, sob
tempestade; às escuras, cercado de abismos profundos e, perto de abismos, repletos de
sombra como a morte. Falaste-me do pomar do Amor, onde é quase impossível cortar
uma rosa sem morrer, já que é rara a flor em que um áspide não se possa aninhar.
Disseste-me algo sobre a esfinge de bronze terrível e muda que fica na entrada da
tumba. Eu fiquei espantado porque a glória me havia atraído com sua formosa mão e o
Amor me com sua embriaguez. A vida era encantadora e alegre para mim, como o é
para as flores e os pássaros.
7. Miraste-me com um olhar inefável e ….sorriste….estrela…
6. queria contar-te um poema sideral que tu pudesses ouvir.

*

Stella Maria Ferreira é graduada em Letras, com Mestrado e Doutorado em Ciência da Literatura pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Possui vários textos publicados pela Revista Eletrônica da Faculdade de Letras da UFRJ e artigos em livros de diversos organizadores; ganhou primeiro lugar no Concurso de Redação para Professores promovido pela Academia Brasileira de Letras em 2005; possui artigos publicados em seis livros sob o tema – finais de século XIX; venceu o Prêmio LiteraCidade 2015- categoria Contos Avulso (‘Conto de um leitor viajante’), o Concurso Novos Poetas, edição 2017 e teve este ano seu e-book ‘Guardador de existências’ publicado e comercializado pela amazona.com.br Este ano sua tese de Doutorado acaba de ser publicada pela NeA Edições. É Professora e trabalha atualmente na Secretaria Municipal de Educação do Rio de Janeiro.

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