Um exagero de tio

Autora: Sonia Regina Rocha Rodrigues

– Taí a Rosinha que não me deixa mentir.
      Rosinha sou eu.
       – Eu? – Quase caí dentro da sopa com o susto.
       – Rosinha, que trabalha em hospital, sabe bem que os médicos fazem essas coisas, não é mesmo? – e, sem esperar minha resposta, o tio continuou a contar como o médico interrompera a cirurgia para tomar café ali no centro cirúrgico mesmo, e até oferecera uma xícara a ele, que aceitara, bebendo de barriga aberta e tudo.
       Fora a imaginação delirante, o tio Beto é gente boa.
        Quando aparece para almoçar, a gente corre a preparar algumas panelas de comida extra para o seu prodigiosos apetite, mas ninguém fica chateado por ele acabar com as compras do mês, pois na casa dele somos recebidos com montanhas de comida, pilhas de filmes, músicas a escolher, para assistir no telão de parede inteira, no estúdio dele.
       Beto não compra livro, compra coleções e séries; se pudesse compraria bibliotecas inteiras, o mesmo vale para os filmes e as músicas.
         Com presentes, Beto é igualmente generoso. Sempre que aparece traz um bom vinho, uma caixa de chocolates, ou aquele objeto que você comentou estar procurando. Não comente que vai viajar porque ele fará questão de levar você ao aeroporto, ou buscar, se for o caso. Quando eu prestei vestibular em São Paulo ele fez questão de me hospedar na casa dele, e me levou pessoalmente ao local das provas para que eu não perdesse o horário.
         O que Beto faz de melhor é conversar. Espirituoso, atento, bem humorado, cativante no falar, paciente em ouvir, se agrada aos fregueses, não gera lucro aos patrões. O tio esforça-se. De vendedor ambulante a técnico de gesso, já fez de tudo na vida. De geladeira a jujuba, entende um pouco de tudo. Tem amigos por toda parte.
        – Desempregado de novo? – vovó torce a cara, quando titia aparece.
        – Pois é, meu marido não tem sorte – e titia, risonha e compreensiva, faz que não vê a careta da mãe. Com seu excelente salário, dispensa a contribuição do marido nas despesas da casa. – É só uma fase, mamãe.
        Muita gente na família acha que minha tia não quer enxergar ‘o óbvio’, que, para eles, é claro, significa outra mulher. Eu tenho lá minhas dúvidas. Acho que os patrões, como vovó, não aceitam ouvir algumas das desculpas esfarrapadas do tio, como ontem:
       – Furaram os quatro pneus do carro. – e ele (o tio) nem estava suado ou  amassado.
       – É mesmo, amor? Coitadinho, deve estar cansado, vai tomar  banho enquanto eu esquento sopa para você.
        Mais tarde, enquanto ele jantava, entrava nos detalhes;
     – O primeiro furou na altura do aeroporto….meia hora depois, quando entrei na Bandeirantes, póu póu, lá se foram outros dois….deixei o carro guinchado na concessionária e peguei um táxi para casa.
       – Ué – a vó disse com ar malicioso – se a concessionária estava aberta a essa hora, porque não colocou os pneus na mesma hora?
        Mas o tio fez que não deu pela coisa:
        – Preferi não esperar e vir logo para casa, estava com saudades da minha esposinha.
        O casal trocou abraços, sorrisos, olhares carinhosos e frases melosas como se ainda fossem namorados recentes.
       Seres imperfeitos que somos, temos de conviver com os defeitos de nossos parceiros, alguns, certamente, mais desagradáveis que as mentirinhas de meu tio. A chatice dos perfeccionistas, por exemplo. A arrogância dos intelectuais. O criticismo dos professores. A avareza. O alcoolismo.
        Dei-me conta de quão sábia é titia. O tio exagerado, certamente é exagerado no amor…
       E, quem sabe, os quatro pneus furaram mesmo.

*

Sonia Regina Rocha Rodrigues é escritora e médica.  É autora dos livros de contos “Dias de Verão”, (1998), É suave a noite (2014), Coisas de médicos, poetas, doidos e afins (2014)  e um de programação neurolinguística  “O Que Você Diz a Seu Filho? – (1999)
Em 1996, participou da fase regional do Mapa Cultural Paulista com o conto “A Auditoria”, representando a cidade de Bebedouro.

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