Poemas Benfazejos

Autor: Rodrigo Duhau

Ata

 

Ah, como é bom ser um aristocrata

Com terno italiano e seda na gravata

Contarei esta história tal uma cantata

Comecei minha vida plantando batata

A crise veio, pedi concordata

Aventurei-me como um simples burocrata

Galguei, com esforço, ao cargo de diplomata

Lá, frequentei festas onde se via só a nata

Puro tédio, tentei mudar, fazendo uma errata

Queria algo, vamos dizer, mais acrobata

Vi a chance de investir em cascata

Conquistei votos à custa de muita negociata

Subia ao parlamento apenas para bravata

Minha imagem de parlamentar era caricata

Aprendi sozinho a ser um falso democrata

Nessa arte de enganar, fui autodidata

Comprei carros, que dava para fazer carreata

Adquiri mansões e até uma fragata

Juntei joias, relógios, moedas, virei numismata

Tinha muito quadro, todos de pintura abstrata

Tive em minha cama loira, morena, mulata

Experiente, novata e até uma beata

Fui da pobreza ao posto de magnata

Na época, vida boa, pura mamata

Mas fui pego com maleta cheia de ouro e prata

A prisão é o verdadeiro lugar do pirata

Pra cadeia! Lugar apertado, sujo e com barata

Antes caviar, agora acém numa lata

Fui solto, o povo, revoltado, fez passeata

Saí do presídio rindo e cantando serenata

Fui chamado de ladrão, safado e psicopata

Queriam me pegar de chibata

Com meus seguranças, fugi de forma imediata

Voltei para minha mansão, a justiça fora exata

Soltou-me para eu voltar a ser um aristocrata

Com seda na gravata e importada alpargata

Além da tornozeleira, que raiva dessa sucata!

Mulher, ano que vem, você será candidata

Como assim? Reagiu estupefata

Ela disse que era pacata, honesta e sensata

E completei: corpo de violão e rosto de gata

Ela, enfim, aceitou; deixou de ser chata

Comuniquei ao partido para registrar em ata   

 

Revelações

 

Confidencie-me seus segredos

Deste momento e de um distante passado

Ambiciono saber

Por quem este coração já foi amado

 

Abra suas latejantes veias

E ponha-me a par de seus pecados

E quem como testemunha

Foi partícipe e deixou seu pensamento machucado  

 

Dilacere sua alma

Fale-me de seus crimes

Daquilo que você se arrepende
Daquilo que também a deprime

 

Confesse-me suas alegrias

Desabroche seu sorriso

Diga-me o que fez e o que fazia

Seja planejado ou de improviso

 

Sussurre-me suas fantasias

Almejo conhecer seu prazer mais misterioso

Aquele que a ruborize

Durante confissão a um religioso

 

Revelações que podem ser agora

Que podem ficar para bem depois

Tudo a seu tempo e sem pressa

Quando, de novo, ficarmos a dois

 

Conto

 

Imagina teu corpo

Agora, divide-o em parágrafos

Em seguida, em orações

Depois, em palavras

Por fim, em sílabas

 

 

Teu corpo, um conto para mim

Uma trama de misterioso prazer

Onde o personagem atinge o clímax

Uma história para se ler, ler

E reler

 

Teu conto exige análise completa

Morfológica e sintática

Um estudo nas tuas entrelinhas

Ir fundo em tua gramática   

Beijarei dos teus parágrafos

Até a tua mais escondida sílaba

 

Teu corpo

Vem a mim

Quero interpretar este texto

Do começo ao fim

 

Descarto os vícios de linguagem

E, claro, as reticências

Minha leitura do teu conto

Será sem pausas e com abrangência

 

Convido-te a abrir tuas páginas

Mostre-te e tenha a certeza

Que analisarei teu conto

Empregando minha língua portuguesa

Este é o nosso novo Acordo…Pornográfico

 

Lembranças

 

Quando caminhar,

Lembre-se de chegar

 

Quando correr,

Lembre-se de reduzir

 

Quando cair,

Lembre-se de levantar

 

Quando se levantar,

Lembre-se de seguir

 

Quando for,

Lembre-se de voltar

 

Quando voltar,

Lembre-se de ficar

 

Quando sorrir,

Lembre-se de agradecer

Quando chorar,

Lembre-se de perdoar

 

Quando deitar,

Lembre-se de se cobrir

 

Quando dormir,

Lembre-se de acordar

 

Quando acordar,

Lembre-se de sonhar

 

Quando ler,

Lembre-se de refletir

 

Quando escrever,

Lembre-se de se libertar

 

Quando desenhar,

Lembre-se de colorir

 

Quando apagar,

Lembre-se de refazer

 

Quando abraçar,

Lembre-se de se prender

 

Quando beijar,

Lembre-se de voar

 

Quando se apaixonar,

Lembre-se de mim

 

Estrangeiro

 

Abandono esta terra

Com excessivo pesar

Na bagagem, apenas lágrimas

Que me seguirão até o meu lar

 

Fiz um ou outro amigo

Para eles, meu carinho eterno

Conquistei um ou outro inimigo

Para eles, o calor do inferno

 

Asseguro que não regressarei

As amizades ficarão na lembrança

Àqueles com quem desavenças tive

Desejo uma fria satânica vingança

 

Plantei algum sentimento

Às vezes, colhi amor

E paixões que foram um alento

Tudo dependia do meu humor

 

Dediquei-me a me acostumar

Com os encantos desse povoado

Com o azul poético do mar

Que me tornou inebriado

 

No entanto, a nau deve partir

Oferto a ti o aceno derradeiro

Em breve, estarei em casa

Fadiguei-me de ser um estrangeiro   

 

Disse para não te iludires

Tu foste uma intimidade passageira

De ti, levo o que é suficiente

Uma foto que porei em discreta prateleira
*

Jornalista, historiador, mestrando em Ciência Política. Assessor de Comunicação Social da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq), autor do livro Luz, Câmera, Repressão, lançado em 2015

BACK