O silêncio dos violinos

Autor:Roberto Malini

 

O silêncio dos violinos

 

Você que é um ser humano como eu,

pare, não prossiga, acelerando o passo

e virando o rosto para não ver.

 

Olhe para mim!

Olhe para minhas irmãs, meus irmãos,

olhe para as nossas crianças!

 

Não se deixe enganar: é verdade,

elas são diferentes das suas crianças

que quando riem parecem violinos,

violoncelos quando choram.

 

As nossas não, elas não riem, não choram,

andam sujas, doentes, têm olhos tristes

fixos no nada como os dos velhos.

 

Você que vive fugindo – quase sempre –

da dor, pare um instante e olhe para nós.

 

Olhe para nós: somos iguais a você (quando o sofrimento

como um raio de luz pontiagudo

lhe fere – inesperadamente – o coração).

 

Olhe para nós, somos carne e fome e sede

e sonhos e sangue e pele

como você, como a sua gente,

como as suas crianças.

 

(Aprenda a escutar o silêncio dos violinos,

a agonia dos violoncelos).

 

Você que parece um ser humano como eu,

pare, não prossiga, acelerando o passo

e virando o rosto condenando-nos

a não existir.

 

O último Natal de Mihai

Era a noite de Natal

e o velho Mihai,

após um dia proveitoso em manghel (1),

estava voltando à barraca.

 

Fazia frio,

o bafo saia-lhe da boca

como a fumaça de um cigarro.

 

No meio da estrada parou:

não tinha mais forças.

 

Respirou fundo

e levantou os olhos ao céu.

 

Parecia-lhe agora escutar

ao longe os violinos dos lăutar (2).     

 

“Então”, perguntou a Deus,

“vou morrer mesmo no Natal?”

 

Em cima dele as estrelas de saias rodadas

abandonaram-se à dança circular.

 

(1) “Esmola” em Romani.

(2) Lăutar são os intérpretes da música tradicional dos Rom, que tocam nas festas, casamentos ou enterros. A música lăutărească faz parte da música popular romena.

 

Prece de um “clandestino”

 

Morrerei jovem,

longe de minha mulher,

entre paredes bolorentas, maus cheiros

e lágrimas.

 

Morrerei em Milão, com a mão

de meu irmão na minha testa,

tremendo de febre

e rezando assim:

 

“Oh Deus onipotente,

não desvies teu olhar

deste filho teu,

lembra-te de que é um homem,

ainda que morra como um cão.

 

Oh Deus generoso,

não julgues seu corpo

vestido de trapos

e enfraquecido pelos tormentos,

mas julga seu coração,

um coração ardente como a África

que nunca odiou,

mas que, mesmo tendo sofrido

todas as penas do mundo,

ainda ama.

 

Oh Deus misericordioso,

não desvies teu olhar

deste filho teu

e recebe-o num canto do teu Jardim

pois – olha para ele! – é um homem,

ainda que morra como um clandestino”.

*

Roberto Malini nasceu em Milão em 27 de maio de 1959, poeta, artista, historiador, roteirista, documentarista, co-presidente do Grupo EveryOne, organização internacional para direitos humanos. Escreveu seu primeiro poema em 1972, a convite de seu mentor e filósofo Fulvio Papi. Em 1975, o romance em versos O ovo, que o diretor Dario Picciau realizou em filme 3D com o mesmo nome, premiado em muitos festivais internacionais. Publicou os livros O mestre de danças divinas, A lei do vôo, Belante cosmo. Na década de 1980 ele realizou uma série de performance poética e musical nas principais cidades italianas. Líder de um grupo de poetas empenhados contra discriminação, junto a Dario Bellezza, Cristopher White e Paola Astuni, que dão vida as reuniões de leitura em toda a Itália. “A poesia tem que sair dos salões” disse em uma de suas reuniões, “rasgar o laurel da cabeça da vaidade e tornar-se um motor de mudança social viva”. Durante muitos anos se dedicou a pesquisa e educação sobre Shoah, assunto sobre o qual tem publicado vários textos, tem colaborado com os mais importantes museus internacionais: Yad Vashem e Beit Lohamei Hagetaot em Israel, o Museu da deportação em Paris, o GLBT Historical Society em São Francisco e outros. Escreveu e dirigiu com Dario Picciau documentários e curtas-metragens para tv, incluindo, Viajando com Anne Frank (produzido por Mediaset e Zdef). Seus estudos e suas interessantes pesquisas incluem a história e cultura de minorias étnicas em particular do povo cigano. Ele coletou mais de 170 obras de artistas mortos ou sobreviventes do holocausto que doou para o Museu nacional do Holocausto em Roma. É o curador de uma importante coleção da história, da cultura e da arte do povo cigano na Europa. Nos últimos anos, sua poesia fala a uma só voz com seu trabalho como historiador e ativista pelos direitos humanos. No período de 2009/2011 publicou os livros Das palavras e da alma, Os poemas do holocausto, O aminho do povo cigano, e traduções em italiano dos poemas de Emily Dickinson e Saffo. Junto com Dario Picciau realizou o vídeo poema, Quando Bartolomeu sorri, trabalho focado em direitos humanos, sendo convidado e homenageado em diversos eventos sociais e festivais de cinema e arte contemporânea. Por causa de seus esforços humanitários em defesa do povo cigano, Malini enfrenta na Itália censura cultural e mídia, bem como perseguição política, policial e judiciária, abusos que já foram alvo de interrogações da Comissão Europeia, intervenção oficial do governo italiano por parte do Relator  Especial da ONU sobre os defensores dos direitos humanos e campanhas de Frontline, a principal organização criada em defesa dos ativistas não violentos. No período de 2012/2017 publicou os livros Declaração, O jardim dos poetas quânticos, Ba Ta Clan, As estrelas no campo de arroz, Se uma gota de tinta (com as fotografias de Steed Gamero). Sua tradutora em português é Amina Di Munno.

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