Talvez fosse apenas um menino feliz

Autor:  Reinaldo Fernandes

Tentava-se em vão saber o que mais lhe cansava. Não se sabe ao certo, nunca se
soube. Se passar todos os dias pelas mesmas ruas, que já conhecia de olhos fechados; se
o barulho infernal da campainha, tocada centenas de vezes no mesmo dia; se a falta de
educação de certos passageiros; ou se o trânsito caótico de Belo Horizonte. Quando
chegava à comunidade, depois daquelas longas nove horas com milhares de marchas
passadas, seu Juvenal sempre perguntava:
___ E aí, Geraldo, como tá?
___ Cansado, Juvenal, cansado!
E seu Juvenal estava sempre ali, curtindo sua aposentadoria de trabalhador da
“Manasmã”, “medindo a rua” – como dizia sua mulher -, esperando Geraldo:
___ E aí, Geraldo, como tá?
___ Cansado, Juvenal, cansado!
Não falava, mas eu bem sabia o que cansava o motorista da linha Madre
Gertrudes – Sol Nascente. “Ah! Eu ainda pego aquele neguinho!”, peguei um dia ele
prometendo à mulher.
“Aquele neguinho” era Deusdêti, Deusdêti Dústi Biber da Silva, mais
precisamente. E não andava só. Quase sempre estava acompanhado de dois fieis
escudeiros, o Jhuninho e Matheus Gordinho. Parecia ensaiado, e talvez fosse mesmo:
Jhuninho agarrava-se do lado direito, Matheus Gordinho ficava escondido na parte
central, equilibrando-se sabe-se Deus como; e Deusdêti ia grudado no parachoques do
lado esquerdo, e essa era sua desgraça pois ficava bem aos olhos de retrovisor de
Geraldo.
Creio que o que mais irritava Geraldo era a cara de Deusdêti. Ria o neguinho,
mas ria gostoso, com a cara mais lavada e safada do mundo, fazendo caretas para a cara
de retrovisor de Geraldo.
O pé ia fundo no freio, sem se importar com o grito de “cê tá carregando num é
porco, não!” dos passageiros sacolejados. A parada brusca derrubava os meninos depois
de cheirarem a lataria do ônibus e, ora ou outra, um ficava no asfalto, correndo o risco
de ser “pisado” pelos veículos que vinham logo atrás ou algum que estivesse tentando
ultrapassar Geraldo.

Mas adiantava alguma coisa a lição? Adiantava, não! No outro dia lá estavam
eles e, no meio deles, a cara safada do neguinho Deusdêti.
E o ritual era o mesmo: 1: eles escondiam-se atrás dos passageiros e, na hora da
arrancada, se atracavam ao ônibus; 2: Geraldo os percebia – menos Matheus Gordinho
– pelos retrovisores; 3: a freada brusca, as caras na lataria e a queda; 4: Geraldo
descendo do ônibus, bufando de raiva, cuspindo sua frase:
___ Eu ainda pego você, seu moleque!
E ele esquecia-se dos dois, e só tinha olhos, raiva e cuspe para o neguinho
Deusdêti.
___ Você vai ver o que ainda faço com você, neguinho safado!, enquanto o
menino desaparecia morro acima e os passageiros quase levavam o ônibus abaixo:
“Simbora! Simbora, motô!”, alheios à dor e ao ódio de Geraldo. Como estava alheio o
amigo Juvenal, que só ouvia:
___ Cansado, Juvenal, cansado!
Na terça, era folga. Na quarta, Geraldo estava de volta. E de volta estavam os
meninos. Saíra de casa decidido a acabar com aquilo. “Hoje ponho fim nessa disgraça!”,
prometeu-se. E, talvez, Geraldo tivesse razão, e Deusdêti fosse mesmo apenas um
menino de vida desgraçada, abandonado à sua própria sorte, sem alguém em casa para
ensinar-lhe a boa educação, o respeito aos mais velhos. Talvez Deus estivesse presente
em sua vida apenas em seu nome, por uma feliz providência… ou coincidência. Talvez
fosse apenas um menino feliz, brincalhão, inconsequente, uma criança.
Naquela quarta-feira, lá estavam eles e, no meio deles, a cara safada do neguinho
Deusdêti. Escondidos atrás dos passageiros, esperaram a arrancada, se atracaram ao
ônibus, Geraldo os percebendo – menos Matheus Gordinho – pelos retrovisores. Foi aí
que Geraldo mudou a rota, virou na Casimiro de Abreu, dirigiu-se até a Alexandre
Herculano, diminuiu a velocidade, quase parando… Parou. Engatou rapidamente a ré, e
entrou, assim, na Desembargador Otacílio Rosberg, sem saída. Os meninos gostando do
“passeio” maior, Deusdêti grudado no parachoques do lado esquerdo, rindo gostoso,
com a cara mais lavada e safada do mundo, fazendo caretas para a cara de retrovisor de
Geraldo.
Tudo acontecendo muito rápido e só então os passageiros começando a
desconfiar do novo trajeto. Aumentou inconsequentemente a velocidade só para dar a
freada brusca, as caras na lataria e a queda. Geraldo descendo do ônibus, bufando de
raiva, em meio aos gritos espantados dos passageiros. Geraldo louco, o neguinho
Deusdêti no chão.
O moleque tentando se levantar, Geraldo se aproximando, olhar fixo no menino
com nome de Deus. Sacou a arma, três tiros no peito.
___ Peguei você, seu moleque!
Os passageiros de olhos arregalados, a Polícia algemando Geraldo e ele parado,
olhando para baixo. No chão, o corpo de Deusdêti em cima da poça de sangue. A
mesma cara risonha, a mesma cara lavada e safa. Como se nem mesmo a morte lhe
roubasse o prazer de brincar.

*

Reinaldo Fernandes, graduado em Letras, pós-graduado e mestre em Linguística, professor.
Autor dos livros Trilhas (poesias) e Sob Suspeita (crônicas e contos). Premiado em vários concursos nacionais.

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