Uma espécie de estranhos gemidos

Autora: Rafael Weiss Brandt

Roubaram-me até isso

 

Tristeza

tenra

ternura

 

é terno torto

em tortos sorrisos –  assim escapados:

– gemidos.

 

Dizem tanto:

transa, mata, domina, maltrata.

Mas que quero com isso?

 

Que quero comigo?

Esse eu perdido, exasperado, óh céus, burguesamente sofrido.

 

Roubaram-me até o zelo

o bestial zelo

de mim.

 

Como dormem os filhos do homem

 

Comprado

me comprazo

na subserviência silente

de meus algozes,

de cara tão inocentes – aí desses vencedores oniscientes!

 

Cospem-lhe a boca, escarram-lhe  a mente

– turbilhão de amenidades tantas a anestesiar,

não sem sentido,

a castração criativa

a laqueadura da poesia

a morte da evidência (já não importa, idiota!).

 

deixe-nos aqui, deixe-nos confortáveis

acalentados

aquecidos

pela urina de mitos tantos

a embalar um sono

do qual ninguém

nem tu

será acordado.

 

À luz, Senhores!

 

Jogaram à luz

que disseca / que demonstra/ que evidencia

a parca solidez

que se diz tão pujante de poderes

democráticos/ socráticos/  (ou não) instituídos.

 

Sorriam e prossigam sorrindo

no deplorável estertor

de quem crê que mandando

se cria/ se produz/ se vive /se ordena.

 

É mandando que se obedece. É obscurecendo que se conclama à luz. A luz exige legitimidade.

Nos matem! Nos matem!

Nos matem e durmam, cientes, jaz à luz: pequena, nunca precisou ser muito. Jaz à luz seus poderes, estados, deveres, ordenanças, genocídios.

É sabido. Vocês sabem. Eu sei.

Me matem. E durmam. Durmam comigo.

*

RAFAEL WEISS BRANDT tem que ser advogado e pesquisador de filosofia. Nas letras livres recebe a catarse que lhe resta – ou a que lhe é permitida. Política, ciência e Estado estão entre seus fetiches prediletos.

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