O Epitáfio mediano

Autora: Rafael Weiss Brandt

Queria a beleza. Mas não podia ser qualquer beleza. Tinha que ser a dele. A beleza dele. A beleza que ele achava bela e o belo não dava mais para ser muita coisa.

Ele via decadência, via muito. Via porque existia. Tinha certeza. Absoluta.

Já não se andava nas ruas assim como antes: tinha podridão, blasfêmia, perdição, iniquidade por todos os lados. Na juventude não era assim. Andava quieto, tranquilo. Perigo? Só de se apaixonar pelos zéfiros que via brincar entre as flores.

 Sobre paixão, até os paus e bucetas eram mais cheirosos, aprazíveis, deglutíveis – acessíveis. Hoje é nojeira, porquice, pequenice. Pra que o fetiche de pôr em xeque o que ele já sabe que está certo? Já sabe, já é sabido, ora!

Não dá pra deixar continuar. Se continuar tem que bater, surrar. Bate, surra, mata.  Deus que ajude a livrar de quem pergunta sobre Deus, sobre bater, sobre surrar, sobre matar. Dá pra discordar?  Tudo legitima. Se a antítese provocativa é um homem pelado, como era e é pra muita gente diplomada, então a tese é o probo, o belo que ele diz que é.

Justifica, é justo! O posto está posto porque foi colocado pelos dele. E dos dele não dá pra discordar assim. Os que tentam assado também são dele: cara ou coroa. Que esperar?

Espera espremer essa fístula purulenta na beleza do mundo dele. Como ousam? Como ousam se imiscuir na vista tão planejada na torre alta escondida do belo dele?

Não mexam na liberdade de livremente dizer o que o mundo pode achar dele! E é por isso que ele já deixa claro, inquestionável, insuperável: eis o Epitáfio mediano.

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RAFAEL WEISS BRANDT tem que ser advogado e pesquisador de filosofia. Nas letras livres recebe a catarse que lhe resta – ou a que lhe é permitida. Política, ciência e Estado estão entre seus fetiches prediletos.

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