Lustrando sob o céu vermelho ou o safári típico da cultura brasileira

Autora: Rafael Weiss Brandt

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Acorda num mundo bege, destes beges tantos de doer os olhos de monotonia. Põem o uniforme também bege cartório numa segunda chuvosa. Alinhado como a sociedade que ele existe para alinhar. Os dedos a corrigir o friso são os mesmos dedos do gatilho, do ofício assinado em garranchos módicos, do forçar entrada à secura de uma esposa indisposta.

É aprazível o ritual diário que agora precisa começar, mas é gostoso na medida do gosto: limitado, pequeno, mensurável num ML de vida. O ruminar silente dá sentido a uma vida incapaz de perguntar de si, como faz o sol ao aquecer ególatras pedras no deserto, convencidas que são de sua pertinência existencial quando tocadas por gélidas e silenciosas e sonolentas víboras ao alvorecer.

O ritual consiste nisso: acordar, alinhar, café pingado bege, solidão onanista num banheiro de cor doente, um beijo na mulher, um afago amarelado na menina, batalhão, ofícios, a espera. A pequena espera num dia pequeno como todos os demais: é a espera pela chegada d’Ele – isso é sempre um negócio complicado, a espera.

Quando pensa sobre isto ele pensa que é assim e só assim que dá para fazer o que tem que ser feito. Tem que planificar a existência. Limitar ao imediato, no imediato. Abraçar a banalidade que se entende como ordem – e ele entende. Afinal, eles já pensaram e o pensado é o pensado. Deus fez assim. Deus quer assim. Deus e o Estado. Ele entende, afinal.

O homem senta apertado na cadeira tom desconforto, o ventilador com seu titilar contínuo, rítmico como o sexo sem graça da semana. O teto descascado fornece imagens interessantes, mas que exigem, odientas, criatividade para serem percebidas. Tac tac tac. Mas a potência do homem se limita a comentários. Tac tac tac.

O teto precisa de uma segunda demão, diz para si. Os outros dizem coisas também, todas para si e tolas tal qual. São regra os botões cansados numa farda cansada de uma barriga que, solitária, grita por liberdade ante a opressão de números menores. Tac tac tac.

O gado rumina entre si amenidades. Esperando a chegada d’Ele. Nesses tempos de violência, as guarnições têm agora quatro ocupantes. Mais arrobas a serem carregadas nas máquinas de combustão moedora de gente destes três homens modernos.

Gigantesco, pelo menos dois metros sem que qualquer um ouse medir, Ele entra. Feição jovial e alva, olhos ofídicos e amarelos. Tac tac tac. Olhares inseguros se trocam. Uniforme bem caído nas mãos branco-pulsantes, de contraste com um mundo de tons bege-cinza. Não há um fio de cabelo na cabeça reluzente e calva, desmatado que é aquele corpo sobrenatural. Tac tac tac. A morte não lhe pode arrepiar, dizem as bocas tortas e discretas. Já ele diz nada sempre que chega. Tac tac tac. Precisa do seu café, que nunca toma em casa. Toma sempre ali. Só ele, na cafeteira dele que só para ele existe. Vê-lo precisa ser uma experiência sinestésica, nos meandros do poder. Assim a decrépita sombra da humanidade reza o início do ritual.

Ele, sombreando as personalidades menores, é o primeiro a entrar na viatura: a histórica viatura, cuja dobradura no tecido do espaço-tempo em detalhes pequenos deixa saltar sua ascendência. Chamam-na, a viatura, carinhosamente de Liberdade. E é a mesma Liberdade pungente e purgante de brasilidade, antes lotada de uma negritude que ela, a Liberdade, serve para extinguir.

O homem não entende, mas Ele parece saber, se não por suas quase-divinas noções, pelo menos por ativamente se valer de eufemismos tantos, as irônicas razões desses signos tão exóticos para definir o comum.

Gosta disso que não entende muito, mas gosta bastante. Gosta de lustrar. É gostoso. Lustrar é passear com as sirenes ligadas, no limbo entre a quebrada periférica e os bairros dos cidadãos de bem, assistindo à debandada esvoaçante da fauna. Ele então encontra uma pretinha ou mulata, mestiça, bugra, cabocla e outros helmintos. Tem que ser nova. Desmatada como Ele. Lustrar é deixar os homens espremidos, suados, ereção patética no fedor enclausurado da Liberdade, cotovelo que roça em cotovelo, enquanto Ele, empurrando a preia à parede, lustra. Lustra com o dedo na boceta pequena, seca, juvenil. Não pode estar menstruada. Tem que ser desértico, tem que doer para lustrar. Lustra-se também o ânus, a olhos nus das demais miseráveis criaturas impotentes a assistir o abate do que restava de animalidade no específico filhote. Ao fim, o bicho sai suado, pele brilhando: lustradinho. Mais um bicho lustrado, numa segunda qualquer.

Hoje é bom. Hoje vão lustrar.

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RAFAEL WEISS BRANDT tem que ser advogado e pesquisador de filosofia. Nas letras livres recebe a catarse que lhe resta – ou a que lhe é permitida. Política, ciência e Estado estão entre seus fetiches prediletos.

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