Estamos perdidos

Autora: Rachel Ripardo

 

Estamos perdidos. Já há dois meses vagamos por mares instáveis e me pergunto se voltarei a ver terra. Às vezes, penso que vislumbro o amarelo da areia de alguma praia perdida, apenas para me perguntar qual seria o tom de amarelo correto. Estou sonhando. Delirando, seria correto dizer. Estamos perdidos. Já não sabemos mais nossos nomes, nem nos vemos mais quando andamos de um lado para o outro. Já não importa. As águas nos oferecem mais conforto do que nossos corações. Dois meses… ou dois dias? O que é o tempo para quem tem a palavra? Tudo. Estamos perdidos.

A noite começou mais cedo do que devia. Fizemos nosso esforço diário de fingir que não reconhecíamos nosso vizinhos. Nosso companheiros de tragédia. Como se estivéssemos em um cruzeiro de luxo, rumo ao nada. Que importa? Na terra ou no mar, estamos sempre rumo ao nada. Mas hoje a noite tinha um cheiro mais salgado, o vento tomou uma direção ligeiramente diferente, aquela estrela 249 brilhou de forma cúmplice. O casal devia estar se amando. Era a única coisa que fazia, que sabia fazer, para lidar com o mar. Estávamos todos perdidos antes mesmo de estarmos perdidos.

Eu já não duvido da possibilidade de nos resgatarem. É justamente quando já estamos cômodos em nossa situação que eles vem, sempre eles!, acabar com o nosso sossego. Sejam guardas da marinha, sejam tubarões, sejam ventos loucos, eu me canso de precisar dar passagem para o marinheiro louco. Ou o casal a caminho do quarto. Ou a senhora, que já morreu há tempo, mas parece que só eu lembro dela.

Está frio, e estou com fome. Já começamos a comer o que não temos. O capitão batizou nosso 4º caixote de anchovas. Foi uma grande festa. Me perdi naquele dia, já não sabia onde era minha cabine, nem onde era o convés, nem onde eu estava. Sim, é possível ficar bêbado de peixe. Quando se tem fome. E sonhos. Eu sonhava que nos achávamos, e então eu revia o meu cachorrinho. Qual era seu nome mesmo? Ou eu sonhei com ele? Será que ele está perdido em minha mente? Ou eu estou perdido na mente dele?

Só sei que essa noite eu entrei no quarto da senhora. Ela não havia morrido. Nos amamos, pois somos um casal. Que só sabe se amar. E se perdendo, nos encontramos. Meu cachorro latiu, o marinheiro louco brindou com o capitão, que não perdeu a rota. Encontramos a terra. A areia era fina, quase branca. As estrelas apagadas, o banquete, farto.

Acordei. Estava perdido.

 

*

Rachel Ripardo tentou vestibular para Letras aos 18 anos e não passou. O que teria acontecido se tivesse passado? Certamente não sabemos, mas o que sabemos é que esta professora universitária de Psicologia nunca parou de escrever contos e romances, e agora publica seu primeiro conto. Às vezes se sente perdida, e em outros momentos, muito encontrada.

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