A Escrita Maldita

Autor: Luigi Ricciardi

 

Felício Hilário fora visto pela última vez bebericando Dry Martini com duas loiras decotadas em um bar da Avenida Tiradentes. Ele usava um chapéu panamá semidesbotado e uma camisa havaiana de mau gosto, sobretudo pelas petúnias que disputavam espaços com rosas, margaridas, orquídeas e violetas. Ele havia chegado lá por volta das dez da noite acompanhado das sirigaitas e já estava um tanto quanto alto. Escolhera uma mesa no canto do salão, o que primeiramente nos faria pensar que ele queria privacidade, mas ele pôde ser visto e ouvido por quase todos no recinto por conta da balbúrdia que aprontava com as duas mulheres.

A última imagem que se tem é a de Felício lambendo os decotes das meninas depois de banhá-los a champanhe. A vulgaridade da cena espantou para outro lado os olhos da testemunha que mais colaborou com os relatos. Era por volta das onze e meia da noite, talvez um pouco menos, talvez um pouco mais. O que se sabe é que alguns minutos depois, segundo os legistas, a alma de Felício Hilário já não se encontrava mais entre nós, e seu corpo jazia, com o sangue ainda quente, ao lado do seu carro no estacionamento do bar.

Felício Hilário fora casado dezessete vezes e em todos os casos deixou a esposa sem um tostão sequer. Não se sabe quais malabarismos semânticos aplicavam seus advogados, mas no fim ele sempre conseguia ganhar e ficar confortavelmente na sua vida de luxo. Ainda assim as mulheres eram loucas por ele, apesar da barriga caindo por fora da calça, da baixa estatura parecendo quase um anão, das orelhas de abano e do nariz à la Ibrahimovic. Era quase um caminhoneiro. Sempre dava um jeito das mulheres gostarem dele, desde a mais simples à mais rica, da mais feia à mais bela, da mais burra à mais inteligente. A maioria delas não aceitava o término do relacionamento. Ele nunca terminou nada amigavelmente. Por isso nunca se descartou a hipótese de crime passional, vingança, ou qualquer outra coisa do gênero.

Eu mesmo cheguei a conhecer Felício Hilário. Frequentei a sua casa durante certo tempo. Antes de ser jornalista, eu tentei minhas vezes na literatura. O povo com quem eu andava tinha ares de poeta, de ator, de artista plástico etc. Éramos todos uns bundões, mas ninguém sabia disso na época, todo mundo acreditava que tinha vindo para revolucionar a arte. Éramos todos esnobes, mas também não sabíamos disso na época. A gente se achava genial.

Naquele tempo o Hilário era pobretão. Era um sujeito que acreditava na arte. Todos nós compartilhávamos da mesma opinião. Era uma trupe bacana. Mas o que ela fez de melhor foi ficar bêbada. Nada mais que isso. Uns dois ou três fizeram algo de realmente importante para a arte. Um fez exposições na França, o outro compôs peças tocadas no municipal e eu não escrevi nada mais do que dois livros de poemas mal fadados. Aí fui pro jornalismo, para falar dos outros e não de mim. Eu sempre fui um sujeito apagado, demorou para eu entender, a grande literatura estava longe de mim e o sucesso bem mais longe.

Passamos assim uns dois ou três anos. Eu fazia uns bicos, a maioria fazia uns bicos, outros eram sustentados pelos pais ou pelas tias solteironas ricas. A gente se reunia lá no cubículo onde o Felício morava. Sempre tinha cerveja. Cada um chegava sempre com alguma bebida nova. Não precisava avisar, era só decidir ir, comprar uma bebida, bater na porta e ir entrando. Não importava o horário. Foram bons tempos. O Felício sempre estava acordado. Era um puteiro inveterado. Bulinava todas as gatinhas que iam com a gente para lá. Não poupava nenhuma. No começo a gente ralhava, mas depois nos acostumamos. Era o jeito dele.

E quando já estava no grau, ficava lá, filosofando sobre a vida, falando dos poemas geniais que ele escrevera e de como ele andava na sarjeta. Chegou um tempo em que ele já estava cansado de ser mal pago pelos textos que escrevia. Trabalhou até de servente de pedreiro, de entregador de jornal, de recarregador de cartuchos de impressora, de Office-boy, e do que mais vocês imaginarem. Mas Felício não se aguentava. Trabalhava uns meses e pedia demissão. Ele não se adaptava. Não se corrigia. Ele vivia para escrever.

O povo foi se afastando, a idade foi chegando, acabamos arrumando empregos e construindo uma carreira. Eu comecei a ver cada um deles mais e mais raramente. Depois disso acho que vi o Felício umas três ou quatro vezes. Estava cada vez mais taciturno. Nunca deixava de estar bêbado. A gente ouvia as notícias das peripécias que ele aprontava. Por algumas vezes eu ouvia o nome dele lá na redação. Era sempre preso por algum motivo banal.

Uma vez me ligaram para correr à cena de um crime para fazer uma matéria. Quando cheguei não acreditei. Era o Felício. Estava morando em um cubículo menor ainda, um cortiço no subúrbio. Fora pego em flagrante, estava sendo algemado. Não consegui nem entrevistá-lo. Ele havia matado uma mulher desconhecida. Tinha o nome Sônia. Nunca tinha ouvido falar dela.

Não entendemos muito bem, mas semanas depois ele foi solto. Provaram que foi legítima defesa. Teve sorte. Fui visitá-lo um dia, mas eu o encontrei quase em coma alcoólico. Estava estirado naquela poltrona marrom desbotada e cheia de buracos onde ele adorava sentar com seu copo de gim tônica falando sobre Hemingway, Bukowski, Wilde, Joyce, Baudelaire, Pirandello, Neruda, Machado, Dostoiévski, Saramago, García Márquez, Céline, Kundera, Tolstoi, Eco e todos os outros caras dos quais ele gostava. Mas naquele dia ele mal me percebeu entrar, não me reconheceu quando parei ao lado da poltrona e caiu em um sono profundo. Foi a última vez que o vi com vida.

Foi estranho quando a gente recebeu a notícia de que o Felício tinha lançado um best-seller. Era uma coisa à la Dan Brown. Eu li o romance. Completamente diferente das ideias literárias e artísticas que o meu antigo amigo tinha. Era quase uma nova pessoa. Vendeu milhares de exemplares. Houve um segundo volume, um terceiro. Já era uma saga. Vendeu os direitos para o cinema, ganhou muito dinheiro. Vivia aparecendo na coluna social do jornal. Acho que ele deve ter se cansado da pobreza. Não se pode culpar alguém por querer ganhar um pouco de dinheiro. Bem, no caso dele era quase o mesmo que vender a alma.

Então ele se tornou uma espécie de guru dos mais jovens. Todos querem ser artista como Felício era. Vivem na esbórnia sem mesmo se perguntar por quê. O modismo conquista até mesmo os artistas, ou pseudoartistas, que preferem escolher campos já explorados a ter que fazer novos. Eu guardei com muito carinho um exemplar de cada livro publicado pelo Felício. Ele editou naquela década da trupe maluca uns quinze livros. Uma editora média publicou três, o resto foi autopublicação.

Quem encontrou o corpo do Felício no estacionamento foi um cliente habitual do bar onde ele estava. O local era bem escuro, muito mal iluminado. Ele foi o primeiro suspeito. Não só porque havia encontrado o corpo, mas porque já havia se estranhado com o escritor em outro bar certa vez. Na raiva, jurou matar Hilário. Por um bom tempo eu duvidei desse comportamento do meu antigo amigo. Apesar de sempre ter sido beberrão, ele nunca havia desafiado ninguém à briga. Depois de ter ficado famoso é que começou a dar vexames e passou a colecionar inimigos por onde passava.

Uma vez ouvi dizer que, bêbado, entrou por engano na casa ao lado da sua, espancou o homem e transou com a mulher. Isso tudo na frente de uma criança. Deve ter gastado uma fortuna para não ter de ir para a cadeia novamente. Ele já tinha inúmeras juras de morte. Um dos nossos amigos que frequentava a casa de Felício na época das vacas magras chegou a abrir um processo contra ele por se achar lesado. Felício teria roubado as ideias literárias do colega que estavam anotadas em um velho caderno que ficava sobre o criado mudo. Daí ele teria tido a ideia base para o seu primeiro best-seller.

Conversei com Wanda Negrão, uma das primeiras mulheres do Felício, logo após a morte dele. Na verdade, Wanda havia se casado três vezes com ele, uma em cada fase da vida. No total devem ter vivido uns quinze anos juntos. Foi a pessoa com quem ele mais viveu. Algumas viveram pouco tempo, o recorde foi de três semanas entre se conhecer, casar e já estar se divorciando. Foi com a Linda, mas dela eu falo depois.

A Wanda achava que ele seria morto mesmo hora ou outra. Apesar da finesse que ele demonstrava em público, era um barraqueiro dentro do relacionamento. Chegou a espancá-la algumas vezes, mas ela o amava. Discutia, arrumava as coisas e ia embora, mas acabava retornando. Eu me lembro inclusive de um dia, depois de quase todos terem “apagado” em uma bebedeira lá nos velhos tempos, ela me disse “um dia ainda vão descobrir como o Felício é um verdadeiro canalha, e provavelmente vai ser com a foto do corpo dele esfaqueado em primeira página.”.

Ela não disse isso só para mim, falou isso em público várias vezes, o que fez com que ela fosse também uma suspeita em potencial. Porém, eu fui seu álibi. Ela estava em minha casa no momento do crime. Todas as vezes que Wanda se separava de Felício, era em mim que ela vinha buscar conforto. Ela era ninfomaníaca e me batia na cara para descontar toda a raiva que tinha de Felício. Eu a perdi várias vezes. Acabei me acostumando. Felício era um conquistador nato, e eu me acostumara a viver desse jeito. Hoje em dia ela me visita uma vez por semana.

Já a Linda foi recordista. Foi a paixão mais meteórica. Eu a conhecia de outras paradas. Liguei pro Felício dizendo que ia levar uma amiga para a nossa festa lá na casa dele. Apareci com a Linda lá. A gente na verdade estava mais ou menos junto. Três horas depois ela vinha me dizer que o Felício a havia pedido em casamento e que ela aceitara. Casaram alguns dias depois ali na sala deles mesmo. Todo mundo seminu e cerveja para todo lado. Treparam na nossa frente. Aliás, os vizinhos faziam queixas diárias. Era uma gritaria só. Quebraram a cama, a mesa, dois sofás e uma janela (não me pergunte como).

Três semanas depois eles já estavam divorciados. Mesmo assim ela continuava frequentando a casa dele. Linda saiu com todos os homens daquela trupe (com algumas mulheres também). A pobre não viria a saber do malfadado fim do Felício, pois ela mesmo havia morrido antes – se enforcou há três anos no apartamento da irmã. Antes disso, casou seis vezes, eu estava na lista dos maridos. Todos eles pertenciam àquela nossa trupe. Ela era uma espécie de “Penny Lane”, uma groupie literata. Mas sua paixão sempre fora Felício.

Nos últimos meses ele estava cada vez mais taciturno, era o que diziam as pessoas mais próximas. Dizem que bebia cada vez mais e que queria afogar todas as mágoas com sexo selvagem com a maior quantidade possível de mulheres. A bebida era a única coisa que o tirava da taciturnidade. Mas no fim da noite era pior ainda. O excesso de álcool o levava de volta ao mundo fechado de seus pensamentos. Era difícil imaginar isso de um cara que estava bebendo champanhe nos peitos de duas loiras siliconadas duas horas antes de morrer. Mas eu pudera confirmar. Vi uma entrevista dele em um canal de arte duas semanas antes de sua morte. Mal respondia às perguntas. Estava aéreo. Não conseguia lembrar-se de nada do que escrevera nos romances que fizeram sucesso, conseguia somente falar dos primeiros livros de poesia que escrevera à mão e reproduzira no mimeografo que tinha em casa. Mesmo assim falou pouco disso. A maior parte do tempo era um silêncio sepulcral, como se ele tentasse se lembrar de alguma coisa e não conseguisse. A entrevista foi feita ao vivo, o que piorou as coisas.

Duas semanas antes, Lívia, sua última esposa, havia ligado na redação do jornal para me dizer que deveríamos nos reunir novamente, para tentar salvar a sanidade do ex-marido. Ela ligou para todos os amigos antigos de Felício, mas não houve de tempo de marcar uma reunião ou algo do tipo. Estávamos muito ocupados no nosso mundo para lembrarmo-nos de algo tão longínquo. Felício precisava da gente e ninguém correspondeu. Parece que já imaginava que morreria. O seu último conto escrito, ainda inédito, e que foi encontrado sobre a escrivaninha de trabalho, terminava com a frase “a vida não vale a pena”.

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É graduado e mestre em letras pela UEM e doutorando em literatura pela UNESP. É professor da Universidade Estadual de Londrina. Finalista do prêmio SESC 2014 com um romance ainda inédito, publicou Anacronismo Moderno (2011), Notícias do Submundo (2014) e Criador e Criatura (2015), todos livros de contos. Fez parte da equipe de tradutores do livro A canoa voadora (2017), de Honoré Beaugrand. É integrante também do Laboratório de Escrita Criativa, com sede em Londrina/PR, onde ministra oficinas. É um dos 101 poetas que entraram na antologia feita pela Biblioteca Pública do Paraná. É maníaco por livros, bebidas, mochilões e coisas inúteis, com os quais gasta sua curta renda. É também idealizador do projeto Mutirão Artístico e da Revista Pluriverso. Colabora também com o portal Homo Literatus. Vive entre Maringá e Londrina, no norte do Paraná

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