Carta ao homem só

Autor:  Luciano Machado Tomaz

“Poucos homens compreendem que suas vidas, mesmo a essência de seu caráter, suas
capacidades e suas audácias são apenas a expressão de sua crença na segurança do
meio. A coragem, a compostura, a confiança; as emoções e os princípios, cada grande
e cada insignificante pensamento pertencem, não ao indivíduo, mas à massa: à massa,
que acredita cegamente na força irresistível de suas instituições, de sua moral, no
poder de sua polícia e de sua opinião. Mas o contato com a selvajaria pura e não
atenuada, com a natureza primitiva e o homem primitivo, causa danos imprevistos e
profundos ao coração. Ao sentimento de sermos os únicos de nossa espécie, à
percepção clara do isolamento de nossos pensamentos, de nossas sensações – à
negação do habitual, que é seguro, agrega-se a afirmação do desusado…”;
Joseph Conrad, “Um posto avançado do progresso”

Caro Homem Só,
Escrevo-te hoje para dizer que te conheço, que te entendo, que sou como tu. A
solidão hoje me persegue, me cega, apanha todos os meus sentidos e se agarra a eles. Já
não sinto nada além da solidão. Sejas tu quem fores, estejas onde estiveres, sou como
tu…. somos um só, duas almas em solidão. Andamos entre multidões, mas eles não são
de nossa espécie, não vêm com nossos olhos, não tem nosso amor trágico pela dor e
pela ausência.
Ainda ontem eu não fazia parte de teu mundo, era como eles: feliz na ignorância
pretensamente sabia de quem acha que conhece o mundo, de quem pensa ter um lar.
Mas na última noite, numa caminhada por uma rua deserta fui desperto da ilusão de meu
eu pleno por um mundo não familiar, belo e esmagador. Após esse instante, a vida se
revelou a mim. Escrevo sentado em minha poltrona favorita, em minha sala, no
amontoado de objetos cuidadosamente organizados aos quais denomino “meu lar”. Meu
lar: já sou também um estranho aqui… já sou estranho no mundo, estranho em mim
mesmo. Sinto um peso no estômago, como se tivesse me fartado de um alimento
indigesto. Mas o que pesa em meu estômago, o que não consigo digerir, sou eu mesmo,
é minha própria consciência, minha própria condição consciente de impotência. Ontem
à noite, tu me arrebataste.
Não queres seguidores, já disseste e eu bem sei. Mas meu até a solidão foi
espontâneo – faz tempo que perdi quaisquer veleidades filosóficas. Foi como um
mergulho no abismo, mas não no abismo da fé e sim no abismo do absurdo. A grandeza
de nossa existência, da existência das coisas, de tudo, tem me sufocado. Não há nada
que possamos conhecer. Talvez um dia nos conheçamos finalmente… mas não!, nem
isso creio agora ser possível. Se eu ainda fosse capaz de me agarrar às explicações
fantasiosas das ciências, das religiões ou das artes, ainda teria esperança…. mas hoje,
escrevendo-te, já não espero nada. Não penses com isso que já não amo a vida, muito
pelo contrário, cada dia a amo com fervor. Só a vida me liberta, as experiências reais, o
caminhar pelos mistérios de uma cidade, de uma multidão.
Ainda gosto de ouvir música, porém não como antes, com a ilusão singela do
gênio intelectual. Agora ouço Chopin não com o intuito de entender a música, de
apreciar o talento de um virtuose encharcado de romantismo, de psicologizar as
intenções do artista, ouço-o agora, no entanto, como quem sorve uma taça de vinho
rapidamente pra se embriagar, descubro na seqüência de sons uma força arrebatadora
capaz de fragilizar o próprio real, senão de destruir nossa ilusão de real para nos mostrar
a terrivelmente bela realidade das coisas, as verdades do mundo.
É preciso estar só, é preciso ser sozinho. A presença de outrem nos ilude, fixa-nos
nos grilhões dos quais precisamos libertar-nos se quisermos realmente viver. Não te
enganes, já te disse que amo a vida. Amo-a tanto que me atormenta a possibilidade de
deixá-la. A existência nos da possibilidades ilimitadas, mas nossas horas não
contemplam todas as possibilidades: precisamos escolher, ou ficar parados – o que é
ainda uma escolha.
Foi assim que cheguei a ti. Tenho necessidade da solidão, talvez tanto quanto tu.
Quero estar só por que amo a humanidade e amo a condição humana, não com o amor
gorduroso do humanismo que se dedica a um homem modelado por deus, perfeito e
irreal, amo os homens como quem ama seu cão, seu filho ou mulher, serena e doce e
desesperadamente. Dou-lhes o que tenho de melhor: meu tempo, minhas experiências:
eu me coloco no mundo e na humanidade. Mas, para viver e entender minimamente a
vida, a solidão é inevitável. Nossa tragédia deve ser contemplada como a mais perfeita
criação artística, contemplada com alegria e paixão.
A civilização – não nos enganemos – é apenas um lapso temporal que emerge
estranhamente no oceano da barbárie. The lull before the storm: a flor da nossa vaidade.
E quem ousará amar o bárbaro? Quem afirmará o homem em sua natureza vil,
acolhendo os mais horríveis gestos, sofrendo na carne a agonia do espírito? Nós,
sozinhos, abraçaremos a liberdade em meio à destruição.

Com essas palavras me despeço de ti, é hora agora de voltar a mergulhar em mim,
já não posso evitar. Espero que um dia tu possas ler minhas palavras e que me ame,
tanto como eu amo a ti. Espero que em algum lugar tu existas e que eu não seja o único
a entender dessas coisas que não cabem em palavras, e que não quero sequer tentar
descrever aqui, na certeza de que quando tiveres esta carta em mãos saberás do que
estou falando. Se ainda não existires, espero que nasças em algum tempo próximo, em
algum coração cheio de vida e coragem, pois penso que chegará o dia em que nos
uniremos, tal qual um exército de titãs, para destruir o lar olímpico e destronar seus reis.
Com sincera e afetuosa amizade do teu admirador

José K.

*

Nascido em Mariana-MG (1986) e atualmente morando no exterior. Escreve há 15 anos.

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