O que é a memória? Penso que é como um novelo único e contínuo, enredado dentro de nós, que emerge à consciência em fragmentos, em variados graus, sendo essa emersão às vezes espontânea, às vezes respondendo a um chamado da consciência.

Fiar o tempo com as palavras é como costurar um traje de gala com retalhos ou tecidos gastos.

Esse livro é como uma colcha de retalhos: tecido com os fios da memória alargada, bordado com o novelo do passado, distendido pela imaginação. É um livro que segue o fluxo da memória e que como ela também é inconstante, descontínuo, sem linearidade, com ritmos variados, como as faixas de um álbum musical. Talvez até mais que isso, pois esse livro engendra memórias, recria o tempo. Veja bem: recria, jamais volta no tempo. Visto que o tempo é irreversível, nunca volta atrás. Não se perde o passado, mas também não se pode repeti-lo. Não se vive duas vezes. O passado em si tal como foi jamais é revivido, recuperado. Mas não se deve lamentar! Podemos recriá-lo indefinidamente, de variadas formas, numa composição ou recomposição de intensidades variadas, em diversos níveis e alturas.  Um salto no tempo, um mergulho no passado e a emersão dos seus traços na consciência: é o que tenho feito nos últimos meses.

 

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Doutoranda em Filosofia na UFSCar.  Mestra e graduada em Filosofia na Unifesp.  Professora de História e Filosofia no ensino básico.  Escreve poesias, contos, romances e longa-metragem nas horas vagas.

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