As confissões que pretendo fazer, não as faria se ainda pudesse ser punida. Mas já se passaram muitos anos e todos estão mortos. Nada mais tenho a temer. Talvez a execração moral. Sempre o que menos me afligiu.
Ainda morava com meus pais, lia revistas em quadrinhos e tinha ursinhos sobre a cama quando tudo começou. Costumava deixar as janelas abertas para que ele pudesse entrar e sair no meio da madrugada. E ele sempre vinha. Mesmo quando chovia. Mesmo quando meu pai deixava o cão solto no jardim.
Durante o dia, arrumávamos encontros furtivos com a complacência de Mira, minha irmã mais nova. Éramos felizes assim, às escondidas. Até que aquilo deixou de nos bastar.
Foi ele quem primeiro deu a idéia. Devíamos ter outros elos. Segredos indizíveis a nos unir. Também foi o primeiro a fazer sua confidência. Uma cigana lera em sua mão que ele trazia a tragédia. Aquilo me comoveu. Ele enxugou minhas lágrimas. Lamentei não ter um segredo à altura. Na verdade, excetuando o segredo do nosso amor, não possuía outros.
Contei, então, um segredo alheio. Que meu tio guardava muitos dólares no cofre de seu quarto. Que eu possuía a combinação dos números.
Misturamos nossos sangues naquele mesmo dia. Já imaginava que sentiria dor quando ele fez uma incisão no próprio pulso. De frente para ele, admirava seu semblante forte, corajoso. Depois, foi a minha vez. Ele pegou carinhosamente meu braço e encostou o estilete na pele clara. Quando a lâmina invadiu a carne, o vaso intumescido sangrou. Gemi. Ele sorriu e uniu  nossos pulsos feridos. Disse que agora meu sangue correria em suas veias e o seu nas minhas. Também sorri, contemplando a ferida.
Foi bem mais tarde que ele disse que um deveria ter não apenas o coração do outro em suas mãos, mas também a liberdade. No começo, não compreendi. Mas estávamos em uma loja de discos e logo ele me mostrou o que aquilo significava.
Furtávamos. No começo, objetos baratos. Depois, mais caros. Eram necessários estímulos cada vez mais fortes para nosso amor.  Passamos meses assim. Havíamos descoberto uma casa abandonada perto da escola que eu frequentava sem muita assiduidade, preferindo a companhia dele a estar em meio àqueles adolescentes medíocres. Era para lá que levávamos nossas relíquias.
Cada objeto era prova da nossa história comum, da nossa cumplicidade. Nos beijávamos contentes, nossos corpos e almas embriagados de amor.  Alheados em nosso mundo particular, não precisávamos daqueles que ignoravam o quanto éramos especiais. Sombriamente distintos.
Eu que tive a idéia. Nosso segredos deveriam ser terríveis, atando nossas vidas num laço indissolúvel. Foi aí que ele me propôs, relembrando o antigo segredo. Deveríamos pegar os dólares do meu tio. E depois fugir? Ainda perguntei. Mas ele me disse que todos os lugares eram iguais e que não haveria motivo algum para ir embora.
Tio  Jofre morava só numa casa não muito longe da minha. Irmão mais velho da minha mãe, era meu tio preferido. Pensei que qualquer sacrifício seria pouco em nome de um sentimento tão nobre. Mesmo que se tratasse de espoliar Tio Jofre, a quem amava.
Meu tio viajaria para a capital em meados de setembro e a casa ficaria só. Disse a ele que aquilo facilitaria tudo. Bastaria esperar um pouco. Ele disse que não. Que seria fácil demais com a casa abandonada. Melhor que meu tio estivesse lá e corréssemos o risco de ser surpreendidos. Mas eu o convenci. Esperaríamos.
Logo, aquele dia chegou. Peguei as chaves que Tio Jofre deixara com minha mãe. Claro que não pedi. Não haveria como explicar. Depois, eu já estava acostumada a violar a gaveta de sua cômoda.
Naquela noite, fui eu que usei a janela para ir a seu encontro. Ele me esperava próximo ao portão da casa, sob uma árvore. Tinha um maçarico, um pé de cabra e outros objetos, cujos nomes desconheço, escondidos numa fissura do muro. Eu disse que não seriam necessários, que tinha as chaves certas e conhecia o segredo do cofre. Para alguma eventualidade, ele insistiu.
Entramos.  Fomos direto ao quarto. Os móveis e objetos antigos e sem graça da casa não nos interessavam. Eu tinha decorado a combinação de números no dia em que surpreendi meu tio abrindo o cofre, quando ele me disse: “é meu segredo”.  Confiante, girei os botões.
O cofre não abria!
Claro me pareceu naquele instante que meu tio trocara os números ao saber que eu os possuía. Sempre fora meticuloso, apesar do estado de desarrumação  em que seu quarto se encontrava. Ingenuamente, não contara com a possibilidade da desconfiança de meu tio. Entrei em desespero. Eu o desapontara!
Mas ele não se alterou e disse que havia acertado ao trazer seus instrumentos. Tentou arrombar a caixa de metal, mas nada conseguiu. Suava. Ficou com raiva e começou a desferir golpes no cofre com o pé de cabra enquanto o xingava, produzindo intensos ruídos metálicos. Foi por isso que não ouvi o carro chegando.
Finalmente, ele decidiu usar o maçarico. Extasiada, eu contemplava  a chama azul. Sentia o cheiro do metal derretendo a acender nosso amor. Era sempre no limite que nos amávamos mais. Encostei meu corpo no dele e o beijei. Foi quando vi o vulto surgindo por sobre seu ombro.
Meu tio estava lá! Voltei-me a tempo de notar a palidez acentuando-se no rosto querido. Com voz titubeante, perguntou o que fazíamos lá. Eu adivinhava. Ele não queria acreditar no que via. Queria qualquer resposta. Por  mais esdrúxula que fosse.
Contudo, não houve tempo para explicações inúteis. Sem que eu esperasse, Tio Jofre correu para cima dele, que empunhou o maçarico. Ele tentava atingí-lo com a chama azulada, mas meu tio se desviava. Nas cortinas sim, na colcha da cama sim, o fogo chegava. Labaredas tomaram conta de tudo  e logo o quarto se transformou num inferno a cercar os dois homens cujas silhuetas eu apenas divisava. Tive medo.
Desci correndo as escadas e voltei para casa. Minha janela continuava aberta. Entrei. Pus as chaves onde as pegara e vesti meu pijama cor de rosa. Abracei o urso que há tanto tempo desprezava e rezei, sem consegui dormir de imediato.
No dia seguinte, meu pai enxugava as lágrimas da minha inconsolável mãezinha. Um corpo havia sido encontrado desfigurado entre as ruínas da casa.  Os vizinhos não me deixavam em paz. Entravam e saíam prestando condolências à sobrinha preferida. A polícia não chegava a conclusão alguma sobre o que de fato ocorrera naquela noite. Teceram conjecturas. Todas estapafúrdias.
Eram dolorosas as horas sem ele. Animada por uma esperança que me parecia vã, por muito tempo mantive a janela aberta em minhas noites tristes. A cicatriz no pulso a lembrar nosso amor. Até que uma noite um homem pulou a janela.
Ele voltara. Mesmo com a chuva forte. Mesmo com os cães soltos no jardim da casa.
Tínhamos, finalmente, um segredo terrível.

 

 

 

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Lindevania Martins é bacharel em Dreito e mestra em Cultura e Sociedade (UFMA). Escreve contos e poemas. Ensaia um romance. Primeiro lugar por duas vezes consecutivas no Concurso Literário Cidade de São Luís, categoria contos. Possui menção honrosa no I Concurso Nacional “O advogado e a literatura – contos de advogados”, promovido pela OAB nacional. Tem publicado o livro de contos Anônimos e vários outros trabalhos em antologias. Anota coisas no blog “Catálogo de Indisciplinas”: https://catalogodeindisciplinas.wordpress.com/

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