teia e outros poemas

Autor: Laís Araruna de Aquino

 

CANTO UNIVERSAL

“Sing me the universal” (Walt Whitman)

Sofres e não sabes por que sofres
Lá fora, árvores frondosas balançam no azul
Mas dentro tudo é um blue sufocado
Quem, se tu gritasses, escutaria teu grito
cheio de antigos, extravagando no ordinário?
Quem, se tu estertorasses, romperia a tarde,
o trabalho e as muralhas do teu corpo sadio?

Ah sofrer do nada…
enquanto a amplidão das coisas circundantes,
muito cheias de si e certas de existência
enquanto o mundo vasto desde sempre aí
Mas o intervalo de não ser mundo
e o intervalo de não ser outro
O intervalo da luz esvaindo
até a consumação total da noite

E ser apenas um! – desgarrado na liberdade
não obstante todos sermos os desgarrados
não obstante todos sermos carne da carne
mas a solidão é só tua, homem
Porque ninguém pode dar-te do imponderável
Ninguém pode devolver-te as confluências do sagrado
e preencher-te a concha de teu amor sem uso

Estás neste mundo jogado sem testamento
Abandonaram-te os deuses e a natureza
E sofres e não sabes por que sofres

 

REITERAÇÕES SOBRE UM TEMA

o vento no canavial
as bandeirinhas de Volpi
os leões que Hokusai desenhou todos os dias
por 219 dias até morrer

a forma não se atinge nunca
na reiteração das coisas no tempo
as coisas – elas mesmas
são outras e tu
outro és

e o café as camisas brancas o assoalho da casa,
o qual pisaste e tornarás a pisar,
numa configuração nunca idêntica,
porque a madeira desbota e teus cabelos vão a cinza

viver – eis a fissura
é estar inacabado até o fim

 

TEIA

não há seguro contra o estar no mundo
nem tua casa te previne contra o assalto da existência
as janelas não impedem o vento e o cortejo de passos
de te trazerem signos do nada
o silêncio acusa que estás no centro de coisas
que não oferecem consolo porque apenas remetem a teu exílio
o expediente de levantar da poltrona e abrir a porta
da geladeira mede o intervalo de tempo gasto
e não sabes de que te serviria mais
teu olhar interroga paredes e detém-se numa lamparina
em vão um inseto debate-se contra o vidro
não há senão esta só e única realidade

à beira do Capiberibe ou do Nevá

*

Laís Araruna tem 29 anos, é Procuradora do Município do Recife e poeta. Tem poemas publicados em revistas digitais. Seu primeio livro sairá pela Editora Ilhós (@editorailhos).

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