Cadeira Vazia

Autora:  Ju Ferraz

Catarina
Catarina é uma garota de 25 anos. Universitária. Chega e cumprimenta algumas
pessoas da plateia de forma tímida. A partir deste momento, todos fazem parte da
sessão de terapia de grupo dela. Ela vê a cadeira ocupando o centro do palco. Ela fica
um pouco apreensiva, mas aos poucos controla o nervosismo, segue em direção à
cadeira e senta nela. Ao discursar, há um misto de emoção de ansiedade, tristeza e
raiva.
Desculpa. É que eu estou um pouco nervosa. É a primeira vez que eu faço isso. Eu vim
a pedido da minha amiga, Cecília. As pessoas têm a impressão de eu ser uma pessoa
extrovertida, que faz amigos facilmente, mas elas estão erradas. A maioria não acredita
quando eu digo que eu sou tímida. Talvez seja porque eu saía, dançava, bebia. Eu ainda
não sei por que as pessoas não acreditam em mim. E não sei por que automaticamente
elas acham que eu sou uma mentirosa patológica. Mas não é para isso que eu estou
aqui…
Cecília disse que eu estava muito estranha. Ela não sabe o que aconteceu comigo. Eu
quero contar, mas eu tenho tanta vergonha, tanto medo. Eu não sei como ela ia reagir.
Eu também não quero perder Cecília. Eu gosto tanto dela… Mas ao mesmo tempo, ela
não merece ficar com um filho da puta como o Eric. Eu disse para ele que eu ia contar.
Ele me deu um tapa e disse que eu estava muito confusa. Que eu era uma vagabunda
que me joguei em cima dele e que eu só ia machucar a Cecília. Eu sei que eu sou
confusa, mas eu não me joguei em cima dele. Eu nunca me jogaria em cima dele…
Cecília disse que eu precisava falar porque o silêncio estava me fazendo mal. Talvez ela
esteja certa. Eu não me sinto muito bem desde que aconteceu. “Bem” também não é a
palavra. Acho que eu não estou sentindo “eu”. É como se eu tivesse me perdido naquele
momento. Como se eu estivesse congelada num segundo que se estende até agora. E eu
tento me buscar. Eu tento me sentir. Mas não importa o quanto eu tateie o meu corpo,
eu não sinto nada. Eu não me reconheço mais. Como falar sobre algo que era e não é
mais?
Falar deveria ser algo fácil de se fazer. Eles têm uma dificuldade real inegável. Mas o
que eu percebo é que eles têm mais coragem para se expressar num mundo insensível
retórico do que aqueles que possuem a aparelho oral funcional. Então por que a gente
não fala?

Eu queria, mas veio aquela sombra tão grande, tão pesada em cima de mim. E eu me vi
tão frágil. Eu tinha certeza de que se eu negasse, eu ia me desintegraria. Veio um bolor
espesso e preto na minha garganta. A minha voz não passava de um sussurro. Talvez
nem isso. Era só um pensamento que nunca chegou a ser verbalizado.
Nessas horas eu fico pensando: Freud era um baita de um filho da puta, né? Fofoqueiro
porque queria saber dos segredos de todo mundo e ainda era pago para isso. E ainda
inventou que esse era “O” método mais funcional que poderia existir. Agora eu
pergunto: Quem, em sã consciência, quer reviver os traumas do passado? Se estão no
passado, deixem eles lá! Para que revisitar a coisa que já está enterrada? Fica exumando
ossada de problema que nem deveria ter existido, insistindo pro coveiro falar.
Quer saber de uma coisa? Os mudos são felizes e não sabem. Talvez até saibam, mas
não fazem propaganda sobre isso. Sabe por quê? Para que as outras pessoas não fiquem
copiando essa felicidade. Porque mesmo que algum deles venha com uma
retroescavadeira mnemônica, o que eles vão poder dizer? Nada. Quem não fala, não se
lembra, não revive. Não revira cova ancestral nenhuma!
Eu queria ser muda. De nascença. Se eu ficasse muda agora, vão achar que eu tenho
alguma questão. Mas quando você é muda de nascença, as pessoas não se importam.
Acham isso exótico, como se isso fosse uma nacionalidade. O povo dá muita
importância à fala. Todo mundo tem milhares de maneiras diferentes de se comunicar e
sabe o que todos eles estão realmente dizendo?! NADA! Absolutamente nada. Ou então
muita merda que não serve de nada para ninguém. Nem para o próprio orador! Antes
ficasse calado porque não ia inundar os ouvidos dos outros com as asneiras que contam.
Supervalorização da fala. O que importa nesta Torre de Babel contemporânea que
vivemos é apenas o emissor e não a verdade. Ela não tem o menor valor! Eu não tenho o
menor valor…

Falar. Nunca é fácil falar.

Pausa.

O que você queria que eu dissesse mesmo?

Muda de cena. Muda Luz.

*

Jornalista, atriz e psicóloga formada pela PUC-RIO, CCPAC e IBMR, respectivamente.
Autora dos textos Entrecortes publicado no e-book Um Pedaço Delas pela editora [R]existência e Lugares Marcados publicado na revista LiteraLivre e a peça Cadeira Vazia. O texto O Relojoeiro ganhou o primeiro lugar na categoria Crônica no XXV Concurso de prosa e poesia na Academia de Letras de São João da Boa Vista. Colunista da página Escambau.org com Modelagens Oníricas.

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