Aos três anos de idade, o guri surpreendeu sua mãe: “quem é o meu pai?”, perguntou-lhe com sua voz fina. Porque conhecia os pais dos amigos, e de uma hora para outra se deu conta que lhe faltava um. Como despertado pela batida da porta empurrada pelo vento. “Quem é o meu pai?” A mãe, como todas as tardes, tricotava concentrada no alpendre; era dali que ambos se alimentavam e se vestiam, de suas mãos e do maltrato aos olhos. Sem perder a tarefa de vista, ela se demorou em responder. Ao fundo, bem distante, enquanto esperava, o guri reconhecia a nuvem de poeira que pairava suspensa; era o trabalho dos escravos que batiam o feijão que não era deles, amortecendo a luz do entardecer. Então, a resposta veio mais inusitada que a pergunta: “saiu de um livro”. No susto, o garoto de nome Bartolomeu, Bartô como ela gostava de chamá-lo, achou graça e riu. Brevemente. Parou para avaliar melhor. “E ele era dos bons?”, perguntou com o cenho arqueado de sincera preocupação. A mãe, que entendia perfeitamente a dicotomia da infantil visão de mundo, seu filho tinha somente três anos, respondeu-lhe que “isto depende”. “Do que?” “De quem lê e de quem escreve”. E aquela resposta, que o tempo fez virar memória, ele carregou por sua longa vida.

Da infância, a memória de Bartô guardava também o terrível evento de anos mais tarde, porque então crescera e o menino aprendia rapidamente a reconhecer o tamanho da ignorância dos homens. A mãe o tentou recolher, antecipando como poucos os movimentos do caos, no entanto, algo maior que o instinto materno de proteção o empurrava porta afora. Burlou a guarda da mãe-carcereira, corpo moído pela lida, e assim que ela perdeu a batalha e cochilou, meteu-se de peito na madrugada que ouvira ser de festa: os escravos se haviam tornado gente. Livres, homens libertos, e como descobriria, prisioneiros da indecência de outros homens.

A noite rugia encarnada como o inferno dos livros sagrados, repleta de homens religiosos como anjos caídos… Inconformados com a humanitária solução, os antigos “donos” dos agora homens haviam erguido descomunal fogueira no centro da praça. E ali, nas chamas, se livraram dos muitos que ainda julgavam seus e não seres. Para cúmulo do coletivo assassínio, invocavam direitos de propriedade e não se cansavam de falar em Deus… Deus… Deus… como se isso pudesse fazer calar as vozes dos demônios que alimentavam suas almas, como se O quisessem junto na matança: testemunha incontestável, cumplice dos desmandos do homem. Oculto pelas moitas desfolhadas, Bartô enxergava com escarlate nitidez o padre negar benção aos que, após açoite, ganhavam as labaredas. A benção ia para os mascarados, os brancos carrascos que vestiam a camuflagem da covardia. Estava ali também o delegado, bisavô de futuro homem da lei, e cuja coordenação dos trabalhos comprovava, mais uma vez, que a justiça se escreve com sobrenomes. Alguns cuspiam selvagens palavras contra a mulher que se apiedara, clamando pelo que os demais negavam: a humanidade de todos. Se esta mulher que era insultada pelos mascarados pudesse ver-lhes a alma, descobrir sua deficiência civilizatória, entenderia que a humanidade, de fato, não mora em todos os humanos. Para terror final, Bartô não dava crédito aos homens há muito libertos, três recém desempregados capitães do mato, que ameaçavam com jogar crianças, sim, eram crianças como Bartô, caso os pais se negassem a seguir tocando os atabaques. Soavam sinistros estes sons na noite sem lua, porque não havia lua que quisesse espreitar igual selvageria. E os pais tocavam chorando, e os filhos pediam chorando, enquanto os homens sem humanidade gritavam e babavam seu ódio…

E o cheiro do medo se misturava ao de carne queimada…

Aterrorizado na noite quente, Bartô não podia evitar as lembranças que lhe caíam dos olhos turvos. De quando em desafio, durante aula de catequese, questiona o padre, o padre!, o mesmo padre que abençoa agora assassinos. Pergunta sobre temas de sua religião. E fala justo dos escravos, sobre quem indaga a posição de Deus. O padre, de tísica magreza e maquiavélico sorriso, endireita-se na poltrona, incomodado. Os lábios se retesam num riso mudo, pobre coitado, pensa com falsa indulgência; Bartô segue imóvel. Sério, aguarda a resposta que o outro demora. Quem quisesse então descrever a cena, deveria antes esfregar os olhos e se perguntar como o adulto poderia suar os nervos de uma infância distante, diante de uma criança que vestia a serenidade de uma velhice além do horizonte? “Pobre criança”, diz o padre, externando a falsidade. “Acaso não sabe, claro que não sabe, que as escrituras sagradas já falam da escravidão. E da compaixão que deve o amo ter para com seus escravos”. O diz assim mesmo, ao natural, sem enrubescer. “E nós temos compaixão com os nossos?” Provoca Bartô, sem sabê-lo. Não é preciso detalhar cada nervura que se estica no rosto do padre, nem como o tema morre de morte súbita, apenas outro pecado do homem de Deus.

O cheiro de carne queimada, o forte ranço de cabelos queimados, o atabaque vítima de cruel humilhação, as bênçãos desavergonhadas, tudo isto trazia mais e mais recordações… e ali, no embaço da memória se enchiam de nitidez as silhuetas das senhoras, reunidas em tarde de verão no alpendre de sua casa. Mamãe não costura, beberica d’uma taça de chá. Outras também bebem chá. A senhora de coque ruivo, mar de manchas alaranjadas que lhe cobre braços e pescoço feito praga de algas, não o rosto soterrado de pó, sempre carrega consigo folhas frescas de hortelã que põe em qualquer chá. É ingrata tarefa conversar com ela sem desviar o rosto quando o mau cheiro das entranhas lhe sobe até a boca. É mesmo ingrata a tarefa. Quando o tema descamba para a instância superior e Deus é convocado, mamãe se ajeita na cadeira e Bartô estaciona o caminhão de madeira. E ali fica, à espreita dos adultos. Mamãe se ajeita outra vez, como se o assento tivesse mãos, e Bartô não se aguenta e quer saber por que na casa de Deus os mais ricos sentam mais próximos ao altar, ou, dito de outro jeito conforme ele faz, “por que na igreja existe lugar reservado aos ricos?” Espalha-se um murmúrio constrangido que é um oceano de respostas. Antes que alguma das mulheres encontre aceitável fuga, Bartô, inquieto, é capaz de relembrar que o filho de Deus não tinha posses, e recomendava que os demais também não as tivessem. O constrangimento é agora asfixiante. Mamãe se ajeita, maldito assento e suas mãos, seus dentes… Não há resposta nem fuga aceitável. A mulher ruiva encara mamãe, e contrariada, bufa; o mau hálito alcançou mamãe que, bravamente, resiste ao olhar da outra. Então a memória se desfaz… fumaça ao vento.

As lembranças, essas e outras, brotavam feito lágrimas porque o guri, que mal enchia duas mãos de anos, já entendia melhor os homens que a maior parte dos adultos. Todos ali, juntos nas memórias, gente que come gente. E a verdade é que o sofrimento de tantos inoculou veneno no corpo do guri, paralisado de terror. Sofria e resofria o martírio sem necessitar mais dos olhos, cercado pelos ramos secos que lhe recortavam as carnes e naquilo não havia dor… dor é o corpo em chamas que escapa da fogueira abençoada! Melhor seria que o corpo, a fogueira andante, ficasse, que tudo terminasse logo. Teve vontade de gritar-lhe: fica e morre! Mas não o fez. E o homem em labaredas correu e correu, antes fosse o Boitatá, mas era gente, e a noite mergulhou em silêncio que mesmo os atabaques se haviam calado. Ninguém para berrar-lhe: fica e morre! Caiu de paulada pelas costas, encerrando o desespero terminal, derradeira loucura de vida, derrubado por capitão do mato que sempre pensaria dever algo a algum branco. Tornou-se assim a segunda fogueira, filha dos selvagens que inventaram a primeira, filhos estes de outros que haviam chegado anos antes para civilizar.

 

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Meu nome é Jorge Plá Cid. Nasci em Barcelona, Espanha, em 17 de abril de 1967, e resido no Brasil desde 1976. Sou formado em Geologia pela Universidade Federal da Bahia (1991). Atualmente, sou Especialista em Recursos Minerais no Departamento Nacional de Produção Mineral (DNPM).

Escrevo desde 2003, tendo publicado contos, crônicas e artigos em diversas páginas literárias na internet, boa parte destes usando pseudônimos. Obtive Menções Honrosas em dois concursos nacionais de contos da editora Guemanisse, com os contos Fruto Proibido e Gênesis.

Publiquei meu primeiro romance em dezembro de 2012, O Espelho, pela editora Dracaena, tendo esgotado no prazo de um ano a edição de 1500 exemplares, num trabalho financiado por mim mesmo. 

Photo by Belyakov.sergey

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