Poemasdispersos

Autora:  Joana Neto

Alambique

Acordei com palavras na cabeça ou no pensamento.
(Não, não cabeça serve perfeitamente.
Deixemos os pedantismos linguísticos guardados em pergaminho embrulhado em fio de
nylon).
Nada de melodias.
O pensamento não existe à segunda-feira,
Procura o calor e o sol estirado nas manhãs,
Vagueia, fora das pessoas, algures entre elas e o céu.

Não apeteciam as redes sociais.
Não apetecia o fátuo mundo virtual.
Tão pouco lhe apeteciam as tantas consumações de coisas que não queria,
As revoluções inacabadas, os pensionistas desesperados, a miséria de cátedra,
os corporativismos algozes do interesse coletivo,
as contradições das arrogâncias de classe.
Simone de Beauvoir compreenderia.
Talvez soubesse como fazer o mundo escapar da pobreza.
Ela não.
Com ela apenas a solidão do cinismo.

Já nem ele lhe apetecia.
(Refaçamos o verbo. Repristinemos a primeira pessoa.)
Já nem tu lhe apetecias.
Sim.

Já nem tu lhe apetecias.
As esperas.
As conversas inúteis, os motivos fúteis.
O desejo, que empurraste para o coma, a espiar os lençóis.

Era só o cansaço.
O meu tempo fustigado
O meu cansaço a dizer-te, mesmo sem te dizer: “Não venhas”.
Talvez minta.
Talvez haja sempre um tempo reinventado
Que guarde para ti.
Que possa reinventar.
Ponteiros do relógio para refazer ou eliminar.
Como é que possível haver tempo quando nunca fui de o inventar para ninguém?
Pronto.
Deixemos a mentira paliativa.
“Não venhas, ouviste?
Não venhas.”

Trouxe o vestido verde.
Como o da Adela, do Lorca.
Mas sem a alegria e leveza.
Calhou.
Detesto vestidos ao acaso.

E pareceu-me tão mal aquele vestido vermelho
A afundar no sofá.
Ou aquela cerveja, gelada e desanimada, no cais do Sodré.
Estava tão bonita que dava dó.
Como é que pus naqueles preparos?
Não há nada mais feio que a beleza, abandonada, num banco noturno.

(Voltemos à terceira pessoa.
Parece tudo mais distante).

Estava cansada dos labirintos sem saída.
Dos chás mornos.
Das quase paixões inacabadas.
Das ausências.

(Agora eu)
Sim estou farta da frivolidade da tua conversa estúpida.
Como se me impusesses um muro de silêncios ou de distâncias.
Estou, sobretudo, farta que sejas o meu alambique.

Acordei com palavras na cabeça.
Só isso.
(Não, este texto não era para ser sobre ti.
Ou talvez fosse.)

A árvore

Não sei o exato dia em que me salvaste.
Sei que flutuava solitária,
Qual náufraga,
Em mar alto.
Depois da tempestade,
Sei que me agarrei a ti,
Como quem repousa
Numa árvore robusta
Em plena ilha deserta.
E senti um conforto terno
No teu sorriso pueril,
Na tua alegria tonta e inquieta.
Sei que o teu olhar doce me diz.
Mesmo em silêncio.
Que és um abrigo de ternura
Que se precipitou nos meus dias.
E abraço-te, muitas vezes, quando me sinto perdida
Ou quando tenho saudades da tua presença.
Faço-o em segredo. À distância.
E basta.

E é no teu imenso verde

Que encontro muita da seiva dos meus dias difusos.

Casa

Partilhamos casa
Espiamos manias
Diferenças
Hábitos
Pieguices
Vícios.
Aprendemos feitios
Doenças fortuitas
Ouvimos pelas paredes
Disputamos bocas de fogão
O duche
A torradeira
A máquina de lavar a roupa
O estendal
Digladiamos lugares
Com aspirador e pano cozinha
Arrastamos sacos do lixo
Agarramos o silêncio
As gargalhadas
Os almoços ocasionais
As partilhas inusitadas no balcão da cozinha.

Encontramo-nos de pijama

De olheiras em riste
Singulares
Iguais na identidade indistinta
Da intimidade.

*

Nascida no Porto em 1981. Reside em Lisboa desde 2015. Advogada. Assessora parlamentar.

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