Maconha

Autora: Jésus Gome Barreto

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 O apito da 218 cortou o silêncio daquela manhã de Julho  de 1956.Um silvo estridente ecoou na grande plataforma da estação de Ponta de Areia. Eram 5 da manhã. Seu Nozinho gostava de ir todos os dias na bela estação da Bahia e Minas para ver o trem partir rumo a Araçuaí nas Minas Gerais.

Seu Gumercindo, o chefe da gare, já se habituara a perguntar ao seu velho amigo, se desta vez tinha ido embarcar alguém, algum parente. E a resposta era sempre negativa. Nesta manhã, porem, a resposta foi um pouco diferente:

—“Embarquei sim, chefe, mas foi às 4 da madrugada aqui no cais em frente: Meu filho Maconha foi ao Rio de Janeiro fazer uns testes  no Vasco da Gama, e Eu, para não perder o costume, como o Misto ainda não havia partido, vim cumprir o ritual, depois que o Timbira partiu do porto”.

 

  Maconha era muito bom de bola. Goleiro dos bons. Alguns diziam até que era melhor do que o “Aranha” (Orlando Barreto) ou Duca.

 

   A Bahia e Minas era uma ferrovia federal que ligava o Porto de Caravelas, no Extremo-Sul baiano, à cidade de Araçuaí, no Norte de Minas Gerais. Foi responsável pelo surgimento de muitas cidades ao longo de seus trilhos e a mais importante via de comunicação entre os dois estados. Ela, Juntamente com o porto, formava um tripé perfeito com o Aeroporto de Caravelas, que além dos vôos da Força Aérea recebia aviões da Panair, Cruzeiro do Sul, NAB (Navegação Aérea Brasileira) Lloyd Aéreo etc. Eram cinco vôos diários. Você podia embarcar às 6 da manhã, fazer compras no Rio de Janeiro e voltar à tarde para Caravelas. Dizem até que o proprietário da Casa 27 (Que se orgulhava de “pintar o 7 na Rua 7” como dizia sua propaganda, saia de Caravelas no vôo das 7, fazia as compras na Rua da Alfândega e voltava com as novidades para Caravelas, onde aterrissava no vôo das 16 horas.O Caravelense podia se dar ao luxo de escolher como pretendia viajar: Se de avião, navio ou de trem.

 

“Seu” Nozinho, apesar de gostar muito de trem, preferiu mandar seu filho de navio. Afinal, “Seu” Miguel, o comandante do vapor era seu amigo e sempre que atracava no porto, perguntava se ia ter jogo e se seu filho Maconha ia jogar. Era fã declarado do craque. “Já se oferecera diversas vezes para levar o rapaz para fazer testes nos clubes do Rio de Janeiro”.

 

 O Timbira era um velho navio de cargas que como outros naquela época de porto movimentado aqui em Caravelas e Ponta de Areia, levava madeiras e outras cargas para Vitória e o Rio de Janeiro. Havia também, fazendo o mesmo trajeto, outros barcos, tais como o Gávea, Norma, Arari, etc.

“Seu”  Gumercindo, então, muito solícito, perguntou ao seu amigo Nozinho:

—-Já telegrafou ao Rio dizendo aos parentes da chegada de Maconha pelo Timbira? “—- Ainda não, disse Nozinho. Se o telégrafo já estiver funcionando, vou passar a mensagem agora.

 

Naquele tempo, os telegramas eram passados pelos fios da Bahia e Minas,  seguiam até Teófilo Otoni e de lá para as capitais dos estados. Os telegrafistas da Estrada de Ferro eram considerados  entre os melhores do mundo: Devido à falta constante das fitas que eram perfuradas pela máquina contendo a mensagem em código Morse, “pegavam” a mensagem de ouvido pelo som que era transmitido pela máquina de telégrafo o famoso “ Di- dá-dá-dá”.

A viagem do Timbira ao Rio de Janeiro ia levar 05 dias.

 

   Mas lá na Rua Primeiro de Março, ode funcionava o então Departamento dos Correios e Telégrafos, na velha capital do Brasil, instalado em algumas salas do antigo Palácio Imperial,  o mesmo que abrigou a Corte de Dom João em sua vinda para o Brasil, o telegrama chegou bem antes: Era endereçado a alguém que morava no distante bairro de Irajá, no subúrbio do Rio de Janeiro. O texto dizia assim:

—- “Segue Maconha no Navio Timbira chegando dia 10 no cais do porto do Rio de Janeiro.”

Foi um reboliço na repartição: O telegrafista que recebeu a mensagem chamou seu chefe e disse:

—E agora chefe?  Entregamos o telegrama ou avisamos a polícia? Imagine como é que está esse mundo de Meu Deus! Mandar maconha e ainda avisar por telegrama! Esse mundo está perdido. Onde será que vamos parar?

—-O Chefe da seção tomou em suas mãos a mensagem e decretou:

—Vou acionar a Policia Especial e a Polícia Marítima! Imagine se “meus” Correios vão servir para uma patifaria dessas!

— Tomou do telefone e ficou uns 5 minutos esperando linha. Naqueles tempos, o serviço de telefone era difícil e demorado. Era mais fácil acertar um premio na Bala Ruth do que obter linha para discar. Os aparelhos eram  de cor preta  e sérios. Pareciam dar ar de importância à quem deles faziam uso. Tal qual à época  em que surgiram os primeiros aparelhos celulares no Brasil. Eram bem caros mas quem tinha um, fazia pose de rico ao usá-lo, para parecer importante. Demorou mas conseguiu falar com o chefe da policia mais poderosa daquela época nos velhos tempos em que a Cidade Maravilhosa era Capital Federal.:

—Alô, Dr. ? Aqui é o Denoziro Chefe dos Correios e Telégrafos, na Praça XV.

Acabo de receber um telegrama, dizendo  que vai chegar  muita maconha aqui no Porto do Rio. É tanta, Doutor, que vem de navio. O nome do Navio é Timbira e chega ao cais do Porto no dia 10. Estou mandando o telegrama para o Senhor Ver.

—–“Nada disso” – retrucou o Delegado Dr. Mathias, ávido por uma promoção – Pensou lá com os seus botões que uma ação de apreensão daquela, certamente poderia lhe  render uma bela promoção. Por certo que o fato ganharia às páginas de O Cruzeiro, a maior revista brasileira da época.

Rumou para Os Correios, procurou  Denoziro e foi logo dizendo:

—Nenhuma palavra a ninguém sobre isso, entendeu? Caso contrário vai se ver comigo.”

 

  Denoziro entendeu muito bem. Esse delegado vivia lhe telefonando à cata de informações que lhe levasse a prender alguém famoso. Entregou-lhe o telegrama e foi cuidar do seu serviço, pensando consigo mesmo: “Isso vai acabar me trazendo problema. Só podia  vim lá da Bahia !”

  Enquanto o Timbira navegava em mar de Almirante, já se aproximando de Cabo Frio, Mathias montou uma verdadeira operação de guerra na Baia de Guanabara. Não comunicou nada nem à Marinha, nem à guarda Costeira. Polícia Marítima? Nem pensar! Aquele tal de Sub-Oficial Macário vivia disputando com ele a primazia de fazer as apreensões de drogas que chegavam pelo porto do Rio de Janeiro. Preparou três lanchas rápidas, chamou oito agentes de sua confiança. Deu à cada um uma “Lurdinha” (Como eram chamadas as metralhadoras na época, pelos Cariocas) e ficou de tocaia na entrada da Baia. Uma lancha estava fundeada bem próxima ao morro do Pão de Açúcar. Outra, ao lado do Forte de Jurujuba em Niterói.

A dele, mais ligeira e cheirando ainda à tinta, tinha uma Ponto 50 (também metralhadora) na proa.Tinha ligado pro David Nasser e para o Carlos Lacerda, maiores jornalistas da época. Agora, ganharia fama nacional e internacional.

O Velho Timbira apareceu no horizonte lá pelas 07h30min. Estava até fazendo um solzinho, embora sendo inverno. Assim que se aproximou da entrada, ao comando de Mathias, as lanchas avançaram sobre o navio. Este, megafone em punho, bradava:

— Não adianta fugir! Nem jogar a maconha no mar. O navio está cercado.

—Seu Miguel fundeou o navio. Não era bobo de arriscar as vidas dos marujos e dos três passageiros que levava.

Os agentes subiram a bordo à procura da “maconha”. Como nada encontraram, o Dr. Mathias apertou o Comandante do navio:

—Eu tenho aqui a prova que o Senhor carrega maconha no Navio. Aqui está o telegrama!

O Velho Seu Miguel, então gritou aliviado:

“Maconha!  Maconha ! Venha aqui !”

E o goleirão então, sem saber bem o que se passava, se apresentou:

—-“Pois não “seu” Miguel” Maconha está  às suas ordens”

E o mistério então se desfez. Dizem que o Delega ficou tão fulo de raiva que se atirou na água e nadou até o cais da Praça XV e pediu aposentadoria. O fantasma de  Denoziro até hoje morre de mêdo de encontrar  o fantasma de Mathias e acabar esfolado.

 

                        

 

                                                   FIM

 

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Radialista, aposentado, escreve  um Blog chamado A Beira do Aracaré, onde aborda asuntos diversos do cotidiano, principalmente sobre sua cidade natal, Caravelas, Bahia. Casado, 7 filhos.

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