Ludovico Martins

Autor: Igor Pires Leon

 

LUDOVICO MARTINS

 

A morte de Ludovico Martins pegou de surpresa a todos os moradores do bairro dos Maias. Ninguém acreditava que aquele homem algum dia fosse morrer nem de morte morrida, nem de morte matada.  Diziam que tinha o corpo fechado, que havia vendido a alma ao diabo e por isso teria vida longa, tantas eram as cicatrizes em seu corpo decorrentes de tiros de espingarda, revólver, facadas, punhaladas que havia levado em seus dias de vida. Andava pelas ruas metendo medo, banca de valentão, mexendo com as mulheres dos outros, invadindo casas para matar seus desafetos. Não tinha medo de encarar uma boa briga, não gostava de ser encarado. Certa vez encarou uma briga com dez rapazes dentro de um bar porque um deles havia lhe esbarrado e não havia pedido desculpas. Três saíram mortos e os demais feridos. A polícia entrou, levou todos, menos Ludovico Martins, afinal “a culpa era dos rapazes”. Gostava de andar com a arma na cintura à mostra para que todos pudessem ver, impondo respeito, medo a todos.

Alto, forte, pele morena queimada de sol, barba hirsuta, cabelos longos, olhos medonhos; assim era Ludovico Martins, matador de aluguel, capanga de coronel. Era o diabo na figura de um homem. Não se sabia ao certo quantos homens havia matado em sua vida. Alguns diziam que chegara a cem, ele afirmava ser bem mais, mas não sabia ao certo, nunca tinha marcado, não lhe interessava. “Uma alma a mais no inferno” ele dizia assim que eliminava um desafeto. Era odiado pela maioria dos habitantes dos Maias por conta da morte de Jacózinho Dornelles, filho do seu Zaqueu Dornelles, dono da quitanda São Zaqueu. Um tiro nas ventas do rapaz, tudo porque o jovem desavisado, chegado havia pouco de outra cidade, estava de paixão pela filha de Honório Caldas, fazendeiro rico e conceituado, que não queria ver a filha com conversa fiada e nem namoricos com estranhos – já tinha casamento firmado com Miguel Alcaide, ilustre juiz de direito da cidade vizinha. O rapaz estava andando pela rua, havia acabado de sair da quitanda do pai quando cruzou caminho com Ludovico Martins, que havia horas estava á espreita do jovem. Não teve conversa, não teve nem tempo para nada, somente um baque no peito vindo da velha garrucha de Ludovico Martins. O rapaz morreu na hora, e dizem que Ludovico Martins ainda cuspiu sobre o corpo do rapaz e disse que era mais uma alma para o inferno. A desgraça chegou para a família de Zaqueu Dornelles que chorou a morte de seu filho e jurou vingança. Pra quê! Sabendo do desejo de vingança de Zaqueu Dornelles, Ludovico Martins adentrou à quitanda e arrancou o pobre homem do outro lado do balcão, arrastando-o para a rua  onde disparou duas vezes contra a cabeça de Zaqueu Dornelles, eliminando todo e qualquer resquício de vingança.  

Houve um diz que me diz, uma boataria. Ninguém acreditava que Ludovico Martins estivesse morto. Ninguém queria comemorar a morte do gajo sem antes ter a certeza de sua morte. Vai que alguém comemorasse e o homem aparecesse para tirar satisfações! Os homens reuniram-se na farmácia do Gervásio, ficaram conversando em voz baixa, querendo saber se alguém tinha notícias a respeito do ocorrido. Nada, só boatos. No bar do Guimarães, onde Ludovico costumava tomar suas pingas e sair sem pagar, havia um grande alívio.  “Que Deus leve sua alma para o inferno” disse em voz alta para desespero de dona Quitéria, sua esposa. Aos poucos as pessoas foram se achegando, tomando as mesas, um burburinho de vozes. Gervásio fechou a farmácia mais cedo indo para o bar do Guimarães.

“Será mesmo verdade?” perguntou um morador incrédulo. “Aquele tem pacto com o diabo, não morre tão fácil” respondeu dona Niquinha.

Silêncio.

“E se for verdade?” indagou outro.

Novo silêncio. As pessoas não tinham uma resposta para aquela pergunta. E se fosse mesmo verdade a morte de Ludovico Martins?

“Seria um grande alívio para mim” disse Guimarães.

As pessoas olharam-no assustada por falar assim em tão bom tom. “Vai que o homem está por perto e escuta-o falando! Seria morte na certa!” exclamou dona Quitéria. Guimarães não deu ouvidos, ergueu os ombros, o medo havia ido embora.

Afinal, quem foi que matou Ludovico Martins? Se era verdade a morte do homem, quem o matou? A pergunta ficou sem resposta até a noite, quando Luizinho Dantas, chefe de repartição pública, antenado com as notícias da cidade, chegou para dar as últimas do caso que movimentava a imaginação de todos naquele bairro. O homenzinho magro e pálido foi puxado para o interior do bar assim que passou em frente ao estabelecimento comercial. Afinal ele trabalhava no centro, era um homem que conhecia tudo e todos, não perdia uma notícia, um fato importante que ocorria na cidade.

As pessoas cercaram  Luizinho Dantas que se fez de importante. Pediu uma cerveja bem gelada e foi contando o que ficou sabendo por alguns outros funcionários. Enrolou, deu prosa, queria prender a atenção de todos, ganhar os suspiros das mulheres. “Diz logo, homem!” alguém disse ansioso. Luizinho Dantas abriu um sorriso de lado, tomou o resto de sua cerveja que estava no copo, estalou os beiços e contou o que havia ouvido e depois certificado com os próprios olhos. Ludovico Martins estava realmente morto e o corpo estirado sobre a mesa do necrotério do hospital central. Os olhos das pessoas brilharam de alegria. Guimarães suspirou de alívio. Uma mulher chorou a morte do valentão, ninguém soube por quê.

Ludovico Martins estava lá, no necrotério, com um ferimento mortal no peito, decorrente de uma facada dada por Ana Cora, mulher da zona, com quem Ludovico Martins tinha um caso. Segundo relato de Luizinho Dantas, Ana Cora havia dito ao delegado Santos Andrade, que Ludovico Martins queria deixá-la porque havia se enrabixado por outra mulher, uma talzinha chamada Maria da Graça, uma loira oxigenada, sem peito e sem bunda, que acabara de chegar na cidade vinda lá se sabe de onde. A mulher indignada, vendo-se abandonada pelo amante, apanhou a faca que o homem havia deixado inadvertidamente, sabe-se lá por quê, sobre um móvel, e fincou com todas as suas forças no peito do amante. Segundo palavras de Ana Cora, em relato ao delegado, o homem não sentiu nada, não soltou sequer um suspiro. A faca, segundo o médico legista, o doutor Branco Dantas, primo por parte de pai de Luizinho Dantas, havia trespassado o coração do homenzarrão. Dona Deolinda, perguntou à Luizinho Dantas se ele havia visto o corpo de Ludovico Martins no necrotério do hospital central. “Sim, eu vi com esses olhos que a terra há de comer” disse o chefe de repartição. “Você jura por Deus?” alguém perguntou. Luizinho Dantas meneou a cabeça, levou a mão ao peito e jurou solenemente em nome de Deus. “O homem estava sereno como um anjo, como se a morte lhe fizesse bem” disse o chefe de repartição. Houve um burburinho, um instante a mais de agitação. Guimarães colocou mais uma garrafa de cerveja para Luizinho Dantas, queria ouvir mais notícias a respeito da morte do diabo. Luizinho Dantas estalou os beiços de alegria, estava com uma sede dos diabos. Fazia calor e as pessoas em sua volta aumentava ainda mais a temperatura. Enxugou o suor da testa antes de continuar. “ O próprio delegado o doutor Boanerges Figueira que interrogara Ana Cora, saíra do local do crime consternado, com os olhos vermelhos de tanto chorar.” Alguém perguntou se era de alegria ou de tristeza, e a resposta veio logo em seguida, era de tristeza, pois Boanerges Figueira era amigo de infância de Ludovico Martins. “Até mesmo o prefeito da cidade, o doutor Joca Moraes estivera no necrotério e saíra aos prantos.”

Luizinho Dantas disse com orgulho de homem que havia visto ao vivo e a cores as meninas de dona Iolanda Macedo, à porta do necrotério chorando convulsivamente a morte de Ludovico Martins. Só não soube dizer se a tal talzinha que causara tamanho estrago estava ali por perto ou já havia se mandado dali da cidade. Houve um silêncio profundo, um vazio. Apenas aquela mulher chorava pelo morto. Perguntavam-se se era certo comemorar a morte de um homem mesmo ele sendo o diabo em pessoa, ou se era pecado!

O chefe de repartição disse após um gole de cerveja que o corpo seria velado na sala principal da casa do coronel Osório Matias, que tanto apreciava os trabalhos do falecido, e segundo o qual diziam que eram primos distantes. Luizinho Dantas, centro de todas as atenções, gabou-se de ver a ferida no peito de Ludovico Martins. O silêncio foi assim quebrado, queriam saber detalhes e chefe de repartição foi narrando o que vira e não vira, inventando fatos e ocorridos só para ter o prazer de prender os ouvintes em seu causo inusitado. Estarrecimento geral! “Bem feito!” disse Guimarães “Mereceu o que merecia, bem merecido por merecimento. Seria uma pena se morresse de morte morrida. Morreu na pior das formas, nas mãos de uma mulher, de uma puta ainda por cima”. O homem estava exultante com a morte daquele canalha sacripanta; era o único capaz de extravasar seus sentimentos, pois sempre fora humilhado pelo falecido, que entrava em seu estabelecimento, bebia as pingas quase todas e saía sem pagar, e por outros motivos mais, como a morte de Julião Guimarães, vereador da cidade e primo em primeiro grau de Guimarães. “Ludovico Martins mereceu o merecido.” Cuspiu no chão.

Houve um grande silêncio. As pessoas entreolharam-se. A mulher ainda continuava chorando. Seu Guimarães trouxe umas cervejas para comemorar, mas estranhamente ninguém quis fazê-lo, afinal um homem havia morrido. Foram se dispersando, cada um foi para sua casa. Luizinho Dantas pediu um sanduíche de mortadela e uma cerveja. Logo depois as portas do bar se fecharam.

FIM

*

Graduado em História pela Universidade Cidade de São Paulo – Unicid; Pós-Graduado em Cinema pela Universidade Belas Artes

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