Alice

Autor: Iara Cristina Batista da Silva

Você sabe que Alice é um nome de linhagem nobre? Pois bem, vamos falar sobre nobreza. Nobre eu fui, nobre eu sou. Você se lembra do como rompemos? Como cortamos a linha que nos unia, prendia, talvez sufocava. Aceita que não chegamos a ter um primeiro ou último beijo? Simplesmente acabou, mas não antes de começar. Nós havíamos começado a dezoito meses. Eu me odiei em um primeiro instante quando você apareceu e me decifrou sem pedir ajuda, sem pestanejar, abriu minhas portas e fez seu lar. Odiei sentir-me vulnerável. Amei, amei com todo meu coração, sentir-me amada, sentir-me casa, sentir-me pertencente a alguém. Você estava realmente longe, mas podia te sentir em todos os lugares que ia, quando saia com amigos, me lembro claramente de que cada risada que dava, pensava que se você estivesse presente naquele instante, eu riria mais, riríamos juntas. Amava nos imaginar em um parque de diversões, como duas crianças indo em todos os brinquedos, ou uma correndo atrás da outra em um piquenique no outono (nós amávamos o outono), e ria sozinha ao nos imaginar fazendo compras juntas. Você amava meu nome e eu amava você o dizendo repetidas vezes. Eu amava nós. Nós. Distantes, mas presentes. Amava o frio na barriga. Amava nossos planos. Amava você. E, ainda hoje, às vezes, procuro um culpado ou em que momento, que mínimo momento nós empurramos uma peça de dominó que derrubou tudo. Em que momento nos perdemos? Em que momento, eu, o seu poço de doçura, seu porto seguro, sua certeza, me desfiz? Em que momento, você, meu anjo, meu presente, minha certeza, se desfez? Em que momento, nós, amoras, nos desfizemos? Fui nobre quando te pedi pelo fim, quando aceitei que mais brigávamos que nos amávamos, aceitei que, ou o fim seria aquele momento, os segundos onde pensei “é a hora” ou nos destruiríamos. Hoje, depois oito anos eu não me lembro mais do que você me disse, sei que brigamos, sei que nos magoamos e em alguns momentos tentamos conversar, nos perdoar e brigamos mais. Eu não te perdoava por ter deixado que chagássemos a àquele ponto. Não me perdoava pelo mesmo motivo. E agora tenho seu contato salvo e algumas vezes mandamos coisas aleatórias, conseguimos rir e não tocamos mais naquele assunto, poderia dizer que não existe mais qualquer sentimento por você em mim, visto que agora já existe outra pessoa, mas não tem o que dizer, se não houvesse nada, eu não teria essa necessidade de te escrever, de dizer que te perdoei e me perdoei. E que ainda hoje, quando estou nos lugares penso que, talvez, você também esteja e finalmente possamos ter um primeiro olhar, isso me bastaria.  

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22 anos. Formada em administração. Profissão na área fiscal. Mora com os pais. 4 irmãos. Apaixonada por fotos e livros.

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