Seleção de Ponta de Faca

Autor: Helena de Andrade

Trem em curso

O trem leva ainda que eu resista

Quando desce o morro desvairado

por pouco não me cospe janela afora

Cabelo ventado vedando a boca

fiarada adentrando as narinas, pintando o rosto de caracóis

por vezes, súbita felicidade

mas vertigem

Será implacável o tempo

há tantos cursos entrelaçados, vias cruzadas

se você fechar os olhos escutará a onomatopeia do riscar nos trilhos

A viagem, curta

morro a cada estação, deixando os meus pedaços

e colhendo cactos

certeza de que o florescer não dependerá de nós

Quanto à história, esta sim, cobre-se de nossa pele e suor

Impõe-nos um mundo e nos exige a coragem para movê-lo

O trem nos corta ao meio

 

Sangue

Essa urgência

acomodou-se ao redor das unhas

nas costuras de todas as roupas

paira como poeira levantada

Goles de ansiedade pela manhã

excretadas pela urina à noite

o motor é a esperança de que nada permaneça

mas os pés cimentados

Cinco litros bombeados

oxigenando cada partícula cismada

Universo derramando-se sobre a cabeça

escorrendo pelos braços

pingando dos dedos

 

Por um fio

Carne devorada

restou um fiapo fibroso preso aos dentes

lembrou-se desse nervo por anos

Embora pequena alma

ainda assim vale a pena

plantar em vasos cuidadosamente escolhidos

Brotará alguma coisa, além de desamparo

É certo que culpará a porosidade, a pequenez da cerâmica

a chuva que encharcou a terra

as sementes de má categoria

Deseja rolar para trás o querer

Meu bem, repasse mentalmente o mandamento

“não matarás o desejo”

(deixe-o viver, morrerá de inanição)

 

Miúda

Se me achasse à rua

Teria me recolhido e posto no bolso

Não quero a capa nem o manto

quero um travesseiro donde recostar a cabeça

apenas o desconforto de desbravar-se

camada por camada

Acolho a poesia dos dias sob o véu da melancolia

Escancaro medos

para despir-me da fantasia que me cobre

Minhas palavras revelam intenções

o corpo as demente

Ouça os versos do meu gesto

não se atenha à inércia do meu canto

Tenho o som parado na garganta

preso como um espinho de peixe atravessado

Que loucura segurar ímpetos

*

Fotógrafa amadora, iniciante em montagem cinematográfica, aprendiz de escritora. Trabalha no terceiro setor e é formada em ciências sociais, com mestrado em sociologia da educação. 37 anos.

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