Entre cecês e vendedores de paçoca

Autora: Gabriela Moro de Oliveira

 

O despertador tocou naquela manhã ainda escura. Quase madrugada.  Ninguém disse que seria fácil. Camila dirigiu-se ao banheiro para tomar o sagrado banho matutino. Antes, olhou-se no espelho.  

Meu cabelo está um luxo, que investimento.

As amigas concordavam. As inimigas também. 

Mentira. Camila não tinha inimigas. Estava muito preocupada em resolver a própria vida, comprar seu apartamento, carro, casar, ter filhos e ter aquela vida de comercial de margarina. Ela tinha fé nisso. 

Entrou no box do banheiro e percebeu que havia 18 sabonetes na prateleira. Minha mãe não muda. Ela estava cansada de tentar mudar a mãe. Desistiu. Na minha casa vou comprar apenas o necessário para o mês, não para o ano. 

Às vezes, Camila achava que sua mãe estava se preparando para um apocalipse, juntando mantimentos, roupas e sabonetes suficientes para viver num bunker por 300 dias.

Saiu do banho e olhou para sua saia de botão – aquisição recente – pendurada no guarda-roupas. Ela não gostava de gastar roupas boas para ir ao trabalho, mas abriu uma exceção naquele dia. Colocou uma blusa bonita, seu óculos de sol Rayban novo, sua bolsa de couro e voilá, estava pronta. Pegou a marmita e foi. O relógio não marcava nem 7 da manhã ainda. 

“Bom dia”. Enviou seu torpedo matinal para sua amiga Gabriela. 

Enquanto seguia para o trabalho colocou o fone para ouvir suas aulas. Ela precisava passar em um concurso para começar a vida. Não há vitória sem esforço. Era seu lema. 

Uma hora depois saltou no seu ponto. Tirou seu fone e começou a rezar. Pediu para si e para os demais.  Camila não desistia de tentar fazer sua amiga Gabriela um ser humano melhor, mas não era tarefa fácil. Quando as coisas pareciam estar se encaminhando (ou nunca pareciam), Gabriela vinha como uma fala sinceríssima e ela percebia que faltava muito. 

“diiiiaaaa Camilinhaaa”. Gabriela respondeu o torpedo quatro horas depois.  

típico.  

Resolveu telefonar para não perder o costume. 

Gabriela não atendeu. 

Ainda mais típico. 

 O dia seguiu igual aos demais. Seus dias estavam sempre muito iguais e sem grandes acontecimentos. Não tinha novidades, não apareciam gatinhos, não havia acontecimentos relevantes. Às vezes ela até entendia o sono da Gabriela. 

 Comeu sua marmita. Mais alguns anos e ela viraria uma Masterchef. Sua comida ficava cada dia melhor. Foi pegar sua pequena sobremesa na geladeira do trabalho. Não estava mais lá. Camila praguejou a cara de pau de quem pegou o doce que ela trouxe. Ela xingaria a pessoa se tivesse o mau hábito de desferir impróprios aos coleguinhas.  

O dia passou como sempre passava, mas agora ela não podia mais fofocar pelo MSN empresarial. Uma perda. Quem resiste a uma fofoquinha? Este era seu pecado favorito.  

O fim do expediente chegou. Mais um suspiro de alívio. Ela ainda tinha que estudar. Mas decidiu ir ao Shopping Norte Sul. Todo mundo já parou de frequentar este shopping há séculos, mas Camila não era todo mundo. Chegou ao shopping não havia nenhum cliente. Imaginou-se sozinha ali podendo comer toda a pipoca do cinema de graça: a doce e a salgada. Todo mundo já se imaginou passando a noite sozinha em um shopping podendo aproveitar tudo ali de graça. Camila também. Ela passaria a noite comendo pipoca e babando os eletrodomésticos mais úteis e inúteis de todas as lojas. A Brastemp estava perdendo uma garota-propaganda que realmente AMA a marca. 

Máquina de fazer pipoca. Liquidificador de 200 reais. Lava-louças. Conjunto de panelas Tramontina última geração. Camila esboçou um sorriso e foi dar uma volta.

Tenho que ir ao supermercado também. Lembrou. Como é bom ter cartão alimentação e poder comprar uvas superfaturadas para comer no Transcol. Ela sentia-se privilegiada. 

Rodou pelo shopping, achou tudo caro e foi embora.

Seguiu para o ponto de ônibus. Em apenas 5 minutos o ônibus estava chegando. Aquele parecia ter se tornado um dia de sorte. O ônibus nunca chega em 5 minutos, mas sim em 50. 

Entrou e quase perdeu o ar enquanto contava o dinheiro para pagar. O cobrador era um gato constrangedor de tão gato. Meu Deus.  E era um deus mesmo.  Gato, gato, gato. 

Um novo amor platônico? 

Um novo amor platônico. 

Pagou sem olhá-lo nos olhos. Milagrosamente havia uma cadeira vazia logo atrás de onde o cobrador ficava, mas ela ficou com vergonha demais para ficar ali apreciando aquilo. Caramba, eu poderia ir até o ponto final dos dois lados da cidade só para olhar aquele loiro de olhos claros. 

Ela ficou em pé um pouco mais pra trás, olhando de rabo de olho aquela maravilha da natureza. 

“Estou apaixonado pelo cobrador do ônibus que estou”. Enviou rapidamente um torpedo para Gabriela.

Camila suspirou. Os dias nunca eram totalmente cinzas. Um cobrador de ônibus havia alegrado seu dia imensamente.  Agora só faltava saber se ele era solteiro, bom caráter, bom hálito, crente, desejoso de casar e ter filhos, bem quisto, com chance de ser bem sucedido profissionalmente, que tenha carro ou more perto, que esteja disposto a levar um namoro casto, disposto  tratá-la como uma princesa, sem filhos, sem ex-namorada, nem ex-mulher, heterossexual (!), trabalhador, sem dívidas, idôneo, reputação ilibada, dentre outros adjetivos que nem ela estava lembrando-se no momento. Enfim, além de bonito (gato, gato, gato!!!) ela precisava verificar se ele cumpria os 987 requisitos que ela buscava, os quais estavam anotados em ordem alfabética em um caderno que ficava embaixo de sua cama, escondido. 

O trajeto foi mais rápido do que nunca ainda que o relógio negasse. Camila deu sinal e desceu no seu ponto. Suspirou e partiu para casa. 

Mais uma bela história de amor que não começou. 

*

Gabriela, formada em Direito pela FDV, servidora pública federal recém-empossada, 27 anos, rostinho de 21 e cansaço de 99. Nativa da ilha de Vitória/ES. Ansiosa de nascença, procrastinadora profissional, preguiçosa por instinto de sobrevivência, dorminhoca por hábito e escritora por vocação. Amante de livros, porque a ficção costuma ser mais interessante que a realidade. Louca por animais e fã da minha mãe.

gabyintothechaos.wordpress.com

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