Corpo.:

Autor: Evandro Alves Maciel_

Corpo.:

Se de corpo nascemos
o corpo que somos
em um mundo que é todo ele corpo,
que espírito estranho a nós mesmos é este
que insistimos em levar dentro do bolso?

 

 

No.:

Às vezes pego uma fotografia sua
fico a contemplá-la violentamente
durante um tempo sem tempo

só pra provar
que você já não existe.

 

Ex-Peri- Mentações.:

A linguagem não pode dar conta daquilo que não foi por ela engendrado

da origem olvidamos
ou sequer sabemos, um dia
mas se é que nos cuidamos
passo em passo – o vão que nos cabe
é onde cabemos.

nosso pasto é a linguagem
Não mata a fome
Mas faz da mata
Desértica pastagem.
Chamamos isso: infinito.

a ver quantos pretéritos
conjuram um presente:
: ou de que futuro morreríamos?

uma faca atravessou a garganta daquela nuvem
caiu, então, a chuva, relampejando terras.

"dói, mas é meu corte,
dói, mas é minha dor";
e eu ria que parecia que iria
explodir
feito dinamite.

ainda buscaremos o risco
em meio ao descalabro
de catástrofe em catástrofe
façamos do meio: caminhos.

após,
permutaram nossos olhos
por pedras

ainda assim enxergávamos
na textura dos veios
aquilo que faz dos olhos, olhos
e das pedras, pedras.

se não encontrares sentido naquilo que sentido é, o problema não é meu.

eu estudei filosofia
mas encontrei
no galope dos cavalos
tudo que precisaria.

[pequena peça teatral]
– no bolso portas a cruz
– na parede portas fechadas avisam
que do outro lado algo não vai.

instante se fechou
e do laço que formou
goza-nos a liberdade
como um dedo em riste
na frente do nariz

 

 

Pronomes.:

Eu, um mero rosto voltado ao outro
reinstaurado feito vime bem trançado
sobre si-mesmo.

Tu, um tal momento de entrega ilícita
condescendência amalgamada
à inconsciência como prova.

Ele(a), o mais distante barco ancorado
no mais distante porto
visitado em sonhos de sobrevoo.

Nós, a redundância tomada em febre
de pleonasmo, o beijo plácido
tácito e tautológico do sim e do não.

Vós, a petulância da permanência
tornada leve no seio imenso do devir-
criança.

Eles(as), os mares, altares e cantares
em que espelhamos a natureza
de nosso rio, chão e silêncio.

 

 

Arranjo.:

uma parte é miséria
uma parte é certeza
uma parte é tristeza

mas a maior é mistério.

*

Evandro Alves Maciel (São Paulo, 1980).

Poeta, graduando Filosofia pela Faculdade de São Bento, de São Paulo e fotógrafo amador.

É autor do livro de poemas “Veneno de Ornitorrinco” (Ed. Patuá, 2016).

links.:

Página de Fotopoemas.:

https://www.facebook.com/omultiplocontinuo/

Página site da Editora Patuá.:

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