conto grotesco (humor negro)

Autor: Eduardo Chaves Laurent

“Mendigo”

 

De cá do viaduto, admito – minha fotografia é esta: a cidade toda em preto e branco, e, dessa perturbação noir, brotam dois olhos verde-claros, imparciais, cristalinos.

Não havia nascido mendigo, não. Renunciara à sua condição sociocultural, para viver em pura mutabilidade, e seu passado foi se apagando, aos poucos. Às vezes, no início, alguém passava e comentava “Caramba! Virou mendigo, o fulano!”, mas logo já ninguém se lembrava do nome do fulano, e assim era como se nunca houvesse existido fulano algum. Escrevia qualquer coisa em um papelão, “Deus te ama aqui agora”, e tal, ninguém ligava. Às vezes a vida o lançava de cá para lá, como faz o vento com as folhas secas e os lixos leves que voam ao léu. Errava pelos labirintos do Centro, Andradas, Mauá, Matriz, mas logo acabava voltando para a marquise da Borges, como que por acaso. Tempestades, pulgas, feridas, pivetes, frio, tudo passava, nada de mais.

Até que uma dessas artistas muito modernas passou por ele e o conduziu a um cubículo envidraçado.

Quando, durante a madrugada, a moça havia descido do carro com mais três pessoas grandes, falando com ele por meio de gestos e palavras curtas como se ele fosse um ET ou um doente mental, ele já percebia que estava prestes a sofrer uma mudança brusca, mesmo. Não sabia direito para onde estava indo, não tinha o costume de tentar prever o que seria de si “em breve”, mas também não costumava resistir a nenhum empurrão.

O mendigo estava então entre três paredes de vidro e uma cortina negra por onde ia fazer suas necessidades, o que demonstra que ele não era louco nem nada, apenas indigente. Sempre tivera vergonha na cara, ademais, fora a vergonha na cara que o fizera miserável.

As outras obras de arte expostas não eram menos ousadas que o “Mendigo”, mas essa obra em particular ganhava a atenção do público, talvez por ter como matéria-prima um ser tão diferente de nós, intelectuais.

De cá dessa escada, admito – minha fotografia é esta: todas as obras bem compostas, bem arranjadas, e um homem vazio, jazendo sem cor alguma; seus olhos estão fechados, sempre, mas ele respira. Agora ele tem um sentido em viver, e isso o açoita. O mendigo agora é o “Mendigo”. Faz grande sucesso, algumas pessoas chegam a parar e ficar ali por um bom tempo olhando para ele, comentando as mais variadas loucuras interpretativas, analisando, comparando entre si suas loucuras.

Ele nunca pensara que viria a ser prestigiado assim.

Só que não era a obra, em si, que todos contemplavam. Eram suas próprias interpretações. Ele não ganhava nada com isso, nem um humilde olhar de “olá”.

Não havia mais carvão ou papelão para se expressar, nem para onde voar com o vento. E, quando aquele relâmpago lhe bateu no ventre numa dor extasiante, ele lembrou-se de que não estava se alimentando. Antes eram geralmente umas velhinhas que cuidavam dele.

Fazia muitos anos que ele não sentia o medo de ficar sem ter o que comer. Era uma exposição muito moderna, havia diversos empregados; houve um tradicional deixa-que-eu-deixo, e todo mundo se esqueceu de que aquela obra de arte era de natureza ainda viva. Nem mesmo a “autora” se deu conta da necessidade de manutenção de sua instalação artística, e ela não alimentou com pão e água sua obra, o “Mendigo”, que agora, sim, sabia o que era fome, ao tempo em que ganhava aspas e letra maiúscula em seu nome.

Arregalou bem os olhos verdes e começou a falar, gritar, gesticular, mas quanto mais ele explodia mais o público ficava fascinado, achando que aquilo era parte do show. Foi se retraindo, voltando aos poucos para dentro de si. Sentou-se num canto, e esperou.

Até então, ele achava que conhecia a miséria do Homem. Mas, dias depois de passar a ser o centro daquele espetáculo, o “Mendigo”, obra de arte, morreu. Todos acharam muito lindo quando sua pele ganhou tons de cinza, e logo tons de púrpura, e foi ficando toda azul e enfim verde. Mais verde. Alguns interpretavam aos gritos, “Foi sede!”, outros aclamavam “Isso que é arte!”, outros diziam “Foi solidão”. Morrera de olhos fechados, pura metalinguagem. Começou a se inchar mais e mais, enquanto seu corpo se alimentava do próprio corpo, que emanava aquela aura soturna da vitória bacteriana. Quando ele estava todo bem verde, definitivamente ninguém mais tinha olhos para qualquer outro trabalho da exposição. Os vermes se deliciavam com o banquete.

Aí a artista teve a ousadia do improviso, e modificou sua obra ali mesmo, na frente de todos. Entrou lá e despiu o material, para que os críticos pudessem maravilhar-se com o esverdeamento da obra, que irradiava aquele fulgor pelo salão. Todos os urubus estavam invejosos. E pensavam “Como é que eu não tinha pensado nisso antes? Tão óbvio! Visceral!”.

A celebridade que havia recolhido o mendigo das ruas do Centro de Porto Alegre e o levado para a puta que pariu estava orgulhosa, dando entrevistas, dizendo que as matérias-primas de que precisamos estão sempre embaixo do nosso nariz, podem ser encontradas nas ruas, nas sarjetas, nos lixos secos e orgânicos. Ela realmente chegou a falar “matérias-primas”, no plural, como se existisse mais de uma, como se houvesse na vida algo além da coisa única na qual todo o segredo está contido.

 

*

Eduardo Chaves Laurent é natural de Porto Alegre, Rio Grande do Sul, novembro de 1985. Formou-se em Letras pela PUCRS em 2015, e vem sendo publicado em diversas revistas literárias e coletâneas de concursos de contos, crônicas, poesias e haicais. Autor do blog alquimiadepalavras.blogspot.com, lançou seu primeiro livro individual, “Contos Soturnos – Volume I” em 2016.

BACK