De volta ao Sossego

Autor: Diego Felipe Pereira Noleto

 

De volta ao sossego

Ele voltou, e sentia medo. Quando rodou a chave, ouviu um miado curto e agudo – foi reconhecido pelo som de ferrugem da porta. Cômodos vazios, a sala aos cacos. Ela quebrou todos os seus discos: Gonzaguinha, Cartola, Belchior – inclusive. Todos. Ai, nega! Da sala: D’Artagnam abandonado há uns quarenta dias; vivo porem esquálido. Ai, vida! Pelos olhos, pedia comida ou afeto ou, diante da iminência, um pouco de perdão. “Que é? Tu foste abandonado sem piedade! Estamos na mesma”. Rodou a sala e desviou a atenção daqueles olhos bem grandes e suculentos. D’Artagnam exibia pelos finos e caídos, e costelas à mostra, parecendo uma sanfona. Ignorou-o. Deveria me acostumar com a ingratidão? A casa vazia agora lhe parece maior que o normal. Banheiro infinitamente maior que o aperreio dos dois apertados embaixo do chuveiro em núpcias. Enquanto a fria água da rua molhava as cabeças, o suor e a tensão dos corpos bem próximos deixava uma mancha cor de leite esbanjando tesão em suas pernas. Falar era inapropriado. Mellany insistia muito num amor. Mas agora Belchior aos cacos e montes, e, ao ver o chão do apartamento, ainda cheirando a suor, sentiu medo. “Incrível o que o amor pode fazer”. “Miaaau”! Animou as orelhas e murchou ainda mais a barriga. “Entendo”. Voltou à cozinha e a via em todos os cantos. Não estava claro o que faria com o que sobrou dos presentes – alguns ela levou – e lhe perturbava o amontoado de coisas no outro quarto. Uma batida na porta. “Sr. Debret, o que os novos vão pagar por isso?” – os dois, na porta do quarto. “Você é quem deve saber”. “Sim, mas isso eu já disse. Agora me refiro a esse estado”. Era a decrepitude: mofo, cascas no reboco, talas de assoalho mostrando garras. Demorou a entender. Estava ainda concentrado nos cacos e objetos nos cantos. Perdeu a cabeça, ainda o problema: não saber lidar com o abandono. Colecionava agora amostras de amor: um cartão, um lenço sujo, uma toalha usada, que continha um cheiro – o dela –, o cheiro do corpo nu. Fotografias do casamento: rostos confusos e assombrados, vestidos, fraques, ela: as cores do inferno no brilho dos olhos. “Senhor Debret? O corretor”. Parado na soleira. Terno estampado – incomum – e tinha uma gravata fina mesmo de corretor, parecia detalhista. Passeou os olhos rapidamente pela porta e notou a moldura velha, a cor meio desbotada. Dentro do apartamento sua estatura magra e palidez ficaram acentuadas por uma luz forte do sol na janela e pela falta de móveis; a sala: um grande galpão vazio, luz no centro, luz opaca. Inspecionou detalhes, esfregou dedos nas paredes – o mofo – suspense. “Em vias de fecharmos contrato”. “…” “Dois casais: um com filho e o outro com empregada”. Mercado imobiliário em alta: valorização da moeda, maior poder aquisitivo – pobres querendo ser ricos – e facilidade de compra. “Cotação de três para um: será um bom negócio”. Tapa no ombro, um consolo: promessa de venda. Coisas sem interesse, mas ele havia sido educado, falou serenamente, o que lhe transmitiu confiança. Frases curtas, intervalos regulares. Debret assinou rápido. O corretor guardou papeis dentro de uma pasta. Apertou a gravata, saiu. Olhou da janela: uma cidade vertical: crescimento vertiginoso, empreendimentos, habitação, prédios – dois guindastes adiante. Tudo muda, é uma questão de tempo. Inspeção final: nada mais que pudesse levar. Foram ruma à porta. Fechou a tranca. Entregou chaves, protocolo da quebra de contrato, e um cartão – se algo for necessário. Desceu, sozinho, as escadas, deixou o porteiro olhando-o sair pela rua. Debret abandonou o prédio e tomou a rua à tardinha, sentiu um sol de quase noite. Um tráfego tortuoso. Tomou o primeiro táxi. Sentimento de ausência, sentado atrás naquele banco enorme quase se curvando sobre ele – parecia faltar alguma coisa. Apalpou o bolso: a carteira estava lá, com os cartões; agenda na mão; bolsa de trabalho ao ombro. Deixou uma porta aberta? Meteu a mão no bolso do terno, pegou chaves – ainda não era isso. Chaves, porta, ferrugem. “Pare o carro!” Brecada na Avenida, pisca alerta, buzinas. Nada. Umedeceu. Carro retoma a corrida, velocímetro subindo. Nem olhou pela janela, decidido a nunca mais voltar.

*

Diego Felipe Pereira Noleto. É Jornalista e contista e especialista em Literatura e Estudos Culturais pela Universidade Estadual do Piauí. Começou a escrever contos em 2015, quando publicou seu primeiro conto na revista Desassossego, da USP-SP. Hoje, tem mais dois textos publicados, um na revista Desenredos (revista online de estudos literários) e Revestrés (revista de cultura). Assina seus contos com Lazarus Silvestre

BACK