Instinto Baryshnikov

Autora: Daniela Rosolen

 

A dança começa descalço
Lá no mato
Nu, sem causo, nem coreografia
Todo mundo participa
É canto, é ritual, é ovação
Já com mais gingado
O batuque cruza o terreno
Vai chegando ao terreiro
Quadril de lado, peito aberto
Ganha a roda, mas também apropriação
Dos pés livres ao calçado
Salto alto, rebuscado
Passo fino dos salões
A coisa passa a ter certo ou errado
E pra quem perde o compasso: eliminação
Mas é no grito-desabafo
Que ela ressurge quebrando muralhas
Dá a volta de mãos dadas
Guerreiros sem armas
Riscando o asfalto- discoteca
Passos ensaiados à revelia
A vida é mesmo uma dança bandida

Que te baila pra onde quiser bailar
Por isso ter par é importante
Por isso ir junto é adiante
Mais força, mais ritmar.

 

Rotina

A dança inconsciente de nossos corpos todos os dias
Ao nos desviarmos nas ruas
Ficarmos nas pontas dos pés no transporte público
Nos inclinarmos para recolher o que nos escapa às mãos.

A dança inconsciente dos nossos corpos todos os dias
Ao irmos ao encontro dos braços e receber os abraços em sincronia
Pularmos de alegria e às vezes até em uma perna só
Rebolarmos aqui e ali para achar uma saída

A dança inconsciente de nossos corpos todos os dias
Ao sairmos sapateando de birra por sermos contrariados
Darmos voltas e voltas no mesmo lugar de teimosia
E agacharmos no chão encolhidos, cansados, depois que o dia nos deu um baile

A dança inconsciente dos nossos corpos todos os dias
Faz de nós verdadeiros dançarinos

Somos versados na valsa e no samba

Vamos do clássico ballet ao funk
Damos show de tango e rock
De resto, nosso corpo se adapta: e a gente segue a coreografia que a vida decide mais
sensata.

 

Encaixe

Você não cabe em mim
Parece complexo o bastante
O meu amor é GG
E o seu carinho limitante
Eu não posso com espaços vazios
Pra mim é tudo sempre exorbitante
De PP só o meu medo
Que se sufoca num instante

 

O amor, o bolor e outras dores

O Amor é um verme
Que te come por dentro
É a carne podre fedendo
Sem compaixão

É a junta do quadril doendo
Um pão bolorento
Dentes careados
Mendigos assoviando pra um cão invisível

É uma agulhada tortura
Uma gargalhada deboche
A pele congelada nua
Os masoquistas adorarão

O Amor é um bicho traiçoeiro
Se aproxima ligeiro
Roçando carinho
Sai animalesco ou à francesa

Sem vergonha
Sem destino

O Amor é um pouco instinto
O resto? É pura ilusão.

 

 

Cretina

Ela vinha de bicicleta
Discreta, não fosse a saia
Cretina!

Me desconcentrei nas suas pernas
Me desconcertei sem freio, buzina

Contexto? Cratera, traseira, encrenca, concreto

A cena? Patética
Provocou prejuízo
Vexame meu.

Conserto? O olhar secreto dela
Que fingiu não ver o que fez.
Cretina!

*
Dani Rosolen, 29 anos, é jornalista e poeta paulistana. Formada na turma de 2016 do Curso Livre de Preparação do Escritor da Casa das Rosas, atualmente é integrante do coletivo literário Discórdia.
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