A Voz na Minha Cabeça

Autor: Daniel Fernando Ribeiro da Silva

Primeiro aquele cara me comeu num beco escuro do centro, depois foi embora rindo. Me deu menos pedra do que tinha prometido. Eu devia ter pego antes, não era raro ser enganada. Mas na hora, sempre esquecia.

– Cuzão! – berrei.

Sentei num canto da rua e fumei uma pedra.

Flertei com o paraíso, dancei numa nuvem.

Levantei e caminhei pela calçada. Montes de gente amontoada brotavam de todos os lados, roedores humanóides reunindo-se em volta do queijo amarelado feito de pasta base de cocaína. Alguma coisa caminhou pelo meu braço. Quando olhei, não tinha mais nada. Nunca tinha. Ia o bicho, ficava a coceira.

Vi meu reflexo numa vitrine. Estava horrível. Fumar crack é como tomar banho com ácido. Parte de você escorre pelo ralo, e o que sobra fica feio e distorcido.

Encontrei uma cópia do jornal no chão. Tentei ler. Os pensamentos passavam reto pela minha cabeça, como numa peneira sem tela. Só o que guardei foi a data. Era um dia importante, mas custei a me lembrar o que era.

Quando lembrei, dei um salto.   

– É o aniversário da minha filha!

Mostrei a data pra alguns conhecidos.

Falei da minha filha, Luana. Ela tinha sete anos, morava com os meus pais. Só tirava boas notas. Mas não tinha uma cama, dormia no sofá da sala. Eu tinha prometido que ia comprar quando arranjasse um emprego.

Mas pra trabalhar, eu tinha que largar a pedra.

– É isso!

Decidi parar.

Fumei as últimas que tinha bolso.

Não teve paraíso nem nuvem, só arrepio. Me despedi de todo mundo, até de quem eu não conhecia.

Entrei num táxi, uma mulher estava dirigindo. Dei o meu endereço, mas ela não arrancou com o carro. Só me encarou pelo retrovisor.

– Estou com pressa, se puder ir rápido…

– Não toca no estofamento! – ela retrucou.  

– Assim? – me encolhi num canto.

Ela fez que não com a cabeça.

Levantei a bunda e me apoiei sobre as pernas, como uma aranha invertida.

– Ãhn? – grunhi.

– Sai!

– Eu sou cliente, porra!

Ela pegou um spray no porta-luvas, daqueles de banheiro, e borrifou na minha cara. O sabor químico do extrato de flores envolveu a minha boca. Cuspi no rosto dela e saí correndo, mas caí e dei de boca no chão poucos metros depois. Levantei com muito custo. A taxista não tinha ido embora, estava limpando o banco de trás com um pano e passando o cheirinho com uma expressão de nojo.

Quando cheguei bem longe, gritei um desaforo.

Dei uma fungada na camiseta pra ver se estava mesmo fedendo. Não dava pra saber. Eu nem sabia mais o que era cheiro da rua ou o aroma do meu corpo. O gosto ruim ainda estava na minha boca. Fui até um parque e me limpei no bebedouro. Um grupo de mães passeava com algumas crianças bonitinhas.

– Eu tenho uma filha dessa idade! – balancei os braços e puxei assunto – Mas ela não tem uma cama…

Elas acenaram com a cabeça e saíram correndo. Provavelmente do fedor do meu sovaco. Sentei num banco e fiquei vendo os carros cruzando a avenida. Do outro lado da rua, tinha um shopping. Era ali que eu ia comprar a cama da Luana.

Alguma coisa gritou na minha cabeça.

Uma voz estridente e agourenta, que me envolveu com suas garras afiadas e não me deixou pensar em mais nada. Cutuquei o meu bolso. Estava vazio.

Quando eu parasse com a pedra, aquilo ia sumir. Enquanto não acontecia, eu me contorcia e resistia do jeito que dava.

Fui até um telefone público ligar pra casa. Minha mãe atendeu.

– Manda alguém vir me buscar, tô com dor no pé! – ordenei.  

Ela desligou.

Disquei de novo. Ninguém atendeu.

Me sentei num canteiro, tremendo.

Quando a voz da minha cabeça gritava por muito tempo, eu ficava daquele jeito.

Fui caminhando até em casa. Era um caminho longo, cheio de lombas. Nem pensava direito. Meus pés se moviam por conta própria. O trajeto estava marcado no meu corpo. Quando se é um viciado, aprende-se a voltar a pé pra casa, não importa aonde esteja.

Me escorei na grade do condomínio e apertei o botão do interfone.

– Quem é? – perguntou mamãe.

–  Chama a Luana – eu disse.

Silêncio prolongado.

– CHAMA A LUANA, CARALHO! PUTA.

Desligou.

Me agarrei na grade e me esguelhei.

Ela abriu a cortina e me encarou lá de cima.

Gritei mais alto.

Mamãe se mandou.

O porteiro me deu uma bronca, disse que os vizinhos estavam reclamando. Mandei tomar no cú. Essa gente de condomínio é um porre, vive numa caixa de concreto e acha que entende da vida…

Sentei na calçada pra recuperar as energias. Meu pai chegou do trabalho em seguida. Me encarou em choque por um tempo, como se eu fosse um monte de bosta. Entrou sem falar comigo.

– ABRE ESSA MERDA!

Ele não olhou pra trás.

O porteiro ameaçou chamar a polícia.

Sentei de novo na calçada e fiquei quieta. Depois voltei pro centro. Ninguém queria trepar e dar pedra em troca. Fiquei sem. Meu corpo parecia que ia se dissolver. A sensação de estar sumindo nunca ia embora. A cada dia na rua, eu era um pouco menos eu e mais alguma outra coisa.

No dia seguinte fui no colégio da Luana. Encontrei-a na saída.

Ela passou reto por mim, como se não me conhecesse.

Fui dali pra casa.

– ABRE ESSA MERDA CARALHO!

Um monte de vizinhos meteu a cabeça pra fora pra espiar

Minha mãe me deixou subir. Gostava de manter a imagem. Subi pela escada, o elevador me dava náuseas.

Tinha alguém me seguindo.

Corri vários degraus acima.

Tinha alguém logo atrás de mim.

Cheguei no meu andar.

Tinha alguém do meu lado.

Gritei no corredor e bati de soco na porta.

Dei de cara com uma vizinha. Ela olhou feio pra mim. Me calei. Eu tinha roubado os seus vasos e o tapete da frente da casa pra comprar crack. E não tinha me desculpado.

– Esqueci a chave – sorri.

Ela me ignorou.

Entrei em casa. Luana já estava deitada. Tentei chamá-la, sem sucesso. Parecia uma rocha naquele sofá. Não insisti, estava acabada. A rua espanca os seus músculos e a sua mente, a droga completa o serviço e você vai a nocaute. Tomei um banho daqueles, cheguei a cochilar no chão do box.

Depois dormi por um dia inteiro.

Quando acordei, comi quase toda a comida da geladeira. Tinha muita coceira no corpo inteiro, pulgas microscópicas envolviam todos os meus membros. Fiquei sem roupa.

Luana não tinha voltado da escola. Ia dar os parabéns com atraso, mas fazia questão. Ia falar da cama. Que ia comprar no shopping. Era só começar a trabalhar.

À noite, escutei ela conversando com os meus pais.

– Me deixa dormir na casa da Laura! – disse Luana.

– Não! – disseram eles.

– Aqui tá fedendo tudo!

Papai e mamãe conversaram com ela.

Explicaram que eu era a sua mãe.

Que deveria me aturar.

Que devia pelo menos tentar falar comigo.

Que se eu tomasse mais um banho aquele fedor saía.

Mas era mentira.

O fedor nunca ia embora.

 

Fui pro meu quarto e calcei um tênis.

Antes de sair, coloquei algumas roupas numa sacola, pra vender. E peguei o tapete da vizinha. Ninguém mandava ela ter tapetes tão bonitos.

Quando saí pra rua, minha mãe me chamou pela janela do edifício. Seus gritos evaporaram, misturaram-se com a noite escura, e eu mal entendia o que ela dizia.

A voz na minha cabeça gritava muito mais alto.  

 

*

Nascido em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, em 1992. Trabalhou com design gráfico. Estudante ávido por descobrir sempre mais técnicas de storytelling.  Leitor de livros, quadrinhos japoneses e roteiros de cinema. Acredita que as boas histórias não tem fórmulas, e podem ensinar como levar uma vida mais plena.

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