Devaneios rubensianos

Autor:Bruna da Penha de Mendonça Coelho

 

 

Cap. XLI – O professor a que chamam tempo

[…]

O tempo cobra em dobro tudo o que nos dá e ensina, e por isso é tão cruel quanto os cobradores de juros exorbitantes. Proporciona-nos o conhecimento das coisas da vida e nos concede o livre-arbítrio, não sem deixar de nos contrapor a responsabilidade por tudo que fazemos, falamos ou mesmo pensamos. Realmente não sei por que a prosa tomou este rumo, mas, seja como for, aqui fica a constatação, que se não fizer sentido também não há de fazer mal.

E por isso é que às vezes é melhor a ilusão das mentes insanas, que tudo podem pensar sem se cobrar nem se culpar de nada. Mesmo tendo os anos outorgados pela velhice, podem ter de volta a inocência da infância sem se sentirem ridículas. E a loucura não te cobra nada em troca. Que porventura a sociedade possa fazê-lo vez e outra, disso eu não duvido nem um pouco. Mas a loucura, enquanto estado puro, jamais o fará, porque ela não faz sentido para aquele que a vivencia; ela simplesmente acontece. Ela só faz sentido para os que se consideram “normais” e que aliviados devem pensar: ainda bem que deste mal eu não padeço. E o que é ser normal, afinal? Será que é saber dar as respostas convenientes ao ser questionado? Será que é seguir o que as pessoas julgam ser “correto”? Será que é não demonstrar as emoções ao senti-las? Não sei, pois infelizmente não faço parte desta distinta categoria.

Talvez aí esteja o cerne do meu problema. A fonte dos meus males. Afinal, não faço parte integralmente nem de um grupo nem de outro. Encontro-me justamente sobre esta linha em forma de corda bamba que separa loucura e sanidade, oscilando ao sabor do vento de um lado a outro. Pois se é assim, não tenho vergonha de confessar que prefiro verdadeiramente a loucura.

De qualquer forma, não me creias, leitor ingênuo, que já deverias ter notado que neste exato instante não posso te garantir ao certo de qual lado da corda bamba estou, de qual lado desta Alcântara. E, além disso, de divagações vazias já estou farto, que se isso levasse a algum lugar os livros de filosofia já estariam todos esgotados.   

Passemos a assunto mais interessante.

Este broche é de fato magnífico. Astucioso, audacioso. Faz parte do cargo investir-se desse espírito impetuoso que marca os grandes homens. Pela manhã, com o broche ainda preso ao pijama, olho-me no espelho e minhas rugas já não parecem tão velhas, meus cabelos já não parecem tão brancos, por mais que o aspecto matinal assuste aos jovens, que dirá aos velhos.

Na verdade, essa é a função dos símbolos; fazer reviver uma história ou um ideal. Às vezes para bem, às vezes para mal. E este que eu carrego no peito é deveras fabuloso, de tão brilhante e tão significativo. Olhar para ele todos os dias é honra das maiores do mundo. Qualquer outra homenagem não seria tão incisiva, visto que não remarcaria a glória com tanta precisão. Afinal, não se anda por aí com um troféu na mão. Abraços e palavras de agradecimento se esvaem ao vento e depois ninguém se lembrará disso. Dedicatórias em livros ficarão numa estante e padecerão de poeira e traça. Medalhas também não caem bem quando vestidas; julgar-me-ão louco ou, o que é pior, vaidoso. Mas um broche, sim, é perfeito. Discreto e glorioso, a um só tempo.

[…]

 

Cap. LVI – A liberdade

Posso me lembrar ainda agora daqueles últimos minutos de claustro. Por algum tempo, cuidei que estivesse tendo alucinações. Foi quando vieram com as minhas roupas. Sim, era real. Perguntei novamente sobre a saída e me confirmaram. Era verdade, eu ia ser livre de novo!

Lavei o rosto e ajeitei os fios de cabelo brancos e ralos. Pus as minhas roupas. Eram as minhas roupas! Sim, minhas! Senti-me humano de novo e tratei de me apressar. Tinha que me aprontar logo, antes que mudassem de ideia. Ao olhar em volta, percebi que a maioria dos loucos dormia. Os demais me olhavam assustados e até invejavam a minha sorte. Antes da entrada da enfermeira, aproximei-me de Amadeu, que dormia em sono profundo. Pensei que talvez ele fosse feliz ali. Com discrição, pus o broche em seu bolso, beijei-lhe a careca e o olhei pela última vez.  

[…]

Quando saí daquele lugar, foi como se todas as forças da natureza, as provadas e as imaginadas, convergissem em meus pés. Sim, meus pés, não meu coração, olhos ou mente, como você deve ter imaginado, leitor. Meus pés, sim, pois eles agora poderiam me levar aonde eu quisesse. Isto te pode parecer uma metáfora banal, talvez porque nunca tenhas passado por semelhante experiência.

Quando saí daquele lugar, pode ser que todos os olhares do mundo, dos indiferentes aos piedosos, tenham se vidrado em mim, mas eu não via nada. Nada além da sensação pura de liberdade que tomava meu corpo em uma explosão surda.

Quando saí daquele lugar, os passarinhos da manhã vieram me receber, e provavelmente algum amigo, mas nada seria capaz de me tirar daquele estado tão pleno e tão divino em que minh’alma se encontrava.

Quando saí daquele lugar, uma voz interior me redimia, dos pecados em que caí e mesmo daqueles que nem cometi. Fazia sarar em mim toda ferida, e trazia a doce sensação de eternidade em vida.

Quando saí daquele lugar, mesmo o ouvido que me falhava foi capaz de ouvir arranjos, de violinos e de arcanjos. Pôde ouvir cada pedrinha que estalava entre a sola de meu sapato e o quente asfalto, e cada molécula de vento que tocava meu rosto naquele momento.

Pela primeira vez minha perna manca não reclamou de caminhar tanto. Eu não tinha rumo nem identidade, apenas um espírito que clamava por esse alimento vital a que chamam liberdade. Tudo era novo, como para a criança de tenra idade que pela primeira vez vê uma lagarta colorida no pátio do colégio.

As pernas só faziam andar, queriam ir para longe dali, sem saber ao certo para onde. Quando dei por mim, não sabia onde estava. Tomei o primeiro ônibus para o Catete. Com a Baía de Guanabara sob meus pés, era como se eu flutuasse sobre ela. Aquela imensidão de azul, que unia céu e água, unia em mim os fiapos soltos da minha história, de forma tão perfeita que era como se ela nunca houvesse tido um só rasgo.

Hora e meia depois já estava perto de casa.

Chegando ao portão, senti uma sensação estranha. Mais uma. Um sobressalto, como se aquela casa não me pertencesse mais. “Que besteira, Rubens”, pensei. Tudo estava abandonado. Cheirando a poeira. Não trazia as chaves, mas tampouco estava trancada a porta. Sinceramente, até hoje não sei ao certo como me levaram daqui. Nem o porquê. Provavelmente foi em algum surto, destes de que não me lembro depois.

[…]

Cuidei que era mais seguro evitar sair, pois não sei como fui parar naquele lugar e nem se vão querer me levar de volta.  Campainha deixo tocar. Também não tenho atendido telefone. O carteiro e o jornaleiro que vez em quando chamam ao portão também não têm resposta, por mais que Camilo insista. Mas não, é melhor ser cauteloso, que a prudência é virtude das mais nobres. Não que eu pretenda me isolar do mundo para sempre, há de ser só por uns dias.

Ando tendo pesadelos com aquela gente, com aquele lugar. São muitos os gritos e os risos, e cada vez mais altos e mais agudos. Acordo atordoado, e desconfiado me tranco no banheiro por alguns minutos, até me convencer de que não há perigo. Saio, abro todos os armários e olho embaixo da cama para confirmar se realmente está tudo bem. Dentro de um par de horas, volto a conferir se a porta está de fato bem trancada. Nada de mais. É verdade, não te preocupes, leitor, que não é nada de mais. É normal que nesses primeiros dias a mente fique um pouco confusa, que não há cristão no mundo que digira tão depressa uma história como essa.   

[…]

*

Mestranda em Teoria e Filosofia do Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e bacharel em Direito pela UERJ. Autora do romance “Do outro lado da Alcântara: devaneios quase póstumos” (Curitiba: Editora Juruá, 2016). Participação no livro “Direito Financeiro e Jurisdição Constitucional” (Curitiba: Editora Juruá, 2016. Coordenadores: Marcus Lívio Gomes, Raquel de Andrade Vieira Alves e Abhner Youssif Mota), com o artigo “O financiamento da saúde na Constituição de 1988”, em coautoria com Marcus Lívio Gomes. 1º lugar no Concurso de Redação Sinepe Rio 2010 (de tema “Respeito às diferenças: por uma nova forma de convivência”). Redação selecionada para publicação no Concurso de Redação Sinepe Rio 2009 (de tema “Desenvolvimento Sustentável: um pacto entre as gerações”).

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