A morte do Onde

Autor:Bruna da Penha de Mendonça Coelho

A Academia Brasileira de Letras acaba de anunciar a morte do Onde. E não chore, meu caro, que as lágrimas são o sal do corpo e levam consigo um pedaço da alma. Trate de se recompor e escutar o rumo desta prosa.

Todos receberam com muito pesar a triste notícia e estavam verdadeiramente abatidos, em especial o presidente da Academia, que, em curta declaração, mal conseguia conter os soluços emocionados: “Foi uma grande perda para nós. Não sei o que dizer, estamos todos inconsoláveis. Há muito já agonizava o pobre; talvez tenha sido melhor assim”, disse ele.

As causas da morte ainda estão sendo apuradas, mas se estima que a culpada tenha sido uma preposição folgada, já reincidente em causar confusões, de sorte que uma a mais, uma a menos, a ela realmente pouco importa. De fato, testemunhas afirmaram que mais de uma vez a ouviram gargalhar impiedosa ao escutar alguém dizer:

– Fulano, aonde tá aquele papel?       

Conta-se que o Onde, sentindo-se impotente, isolou-se cada vez mais no triste depósito das memórias, até que um dia nunca mais foi ouvido da boca das gentes. Não poderia ter recebido pior sentença, já que a ele não enchiam os olhos os livros, tampouco as burocracias da academia. Queria mesmo era estar nas conversas cotidianas, nas fofocas indiscretas, no ir e vir do povo, nos burburinhos da cidade. Mas já não estava.

E assim, sem classe gramatical nem função sintática, reside agora no campo semântico da saudade, que tratou de abrigá-lo sob suas asas cor de dourado. Que descanse em paz.  

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Mestranda em Teoria e Filosofia do Direito pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) e bacharel em Direito pela UERJ. Autora do romance “Do outro lado da Alcântara: devaneios quase póstumos” (Curitiba: Editora Juruá, 2016). Participação no livro “Direito Financeiro e Jurisdição Constitucional” (Curitiba: Editora Juruá, 2016. Coordenadores: Marcus Lívio Gomes, Raquel de Andrade Vieira Alves e Abhner Youssif Mota), com o artigo “O financiamento da saúde na Constituição de 1988”, em coautoria com Marcus Lívio Gomes. 1º lugar no Concurso de Redação Sinepe Rio 2010 (de tema “Respeito às diferenças: por uma nova forma de convivência”). Redação selecionada para publicação no Concurso de Redação Sinepe Rio 2009 (de tema “Desenvolvimento Sustentável: um pacto entre as gerações”).

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