O carneiro e os outros

Autor:  Betto Ferreira

Um jovem carneiro, esperto e corajoso, resolveu ir sozinho matar a sede num riacho que
Ficava do outro lado da cerca que protegia o rebanho dos predadores.
Havia anos, nenhum carneiro tinha ousado se arriscar tanto, desde que ouviram de um
velho pai-de- chiqueiro, a estória do cordeirinho que foi devorado por um lobo feroz que
o acusou de ter turvado água do riacho.
No caminho, avistou uma carcaça de um lobo que, pelas circunstâncias, devia ter
morrido de fome porque carneiros não havia mais dando sopa em toda a redondeza.
Percebeu que a pele, na qual ainda se agarrava a cabeça, estava intacta. Fez desta uma
manta e assim chegou ao riacho.
Nem bem tomou o primeiro gole, o jovem carneiro ouviu o uivo de um poderoso
canídeo que fez estremecer os seus ouvidos. E não estava sozinho. Havia uns dez, todos
igualmente ferozes e famintos.
Mas o jovem carneiro se fez de inoportuno e pôs-se a beber da água, aparentando
tranquilidade.
– Vai bancar o esperto fingindo que não está nos vendo? Onde arranjou comida?
perguntou o lobo alfa.
Esperto que era mesmo, o jovem carneiro disse sem perder a compostura.
– Há horas que estou aqui e não senti nem cheiro. Ouvi dizer que não há mais nenhum
deles por estas redondezas. Foram todos devorados por leões do sul.
– E por que está bebendo tanta água? Quis saber um outro.
– Ora, porque estou com muita fome e ouvi dizer que água ajuda a enganar o estômago,
respondeu o esperto carneiro.
– E quem lhe disse isso? Grunhiu outro lobo.
– É um saber ancestral, camaradas, admira-me que não saibam, respondeu o carneiro,
provocando certo incômodo moral em alguns do grupo.
Não querendo se passar por ignorante daquela sabedoria ancestral, isso seria prejuízo a
sua posição na matilha, o lobo alfa interrompeu o ímpeto dos mais afoitos.
– Claro que sabemos. Viemos aqui fazer o mesmo. Agora pode nos dar licença, um
pouquinho, por favor?
Ao se empanturrarem da água do riacho, os lobos foram embora ainda com fome, porém
honrados.

Satisfeito e orgulhoso, o jovem carneiro voltou correndo para contar a novidade aos
outros.
Mas, para sua incompreensão, os carneiros fugiram em desespero assim que o viram
ultrapassar a cerca de proteção. E logo deu-se conta do equívoco. Ainda por precaução,
nunca se sabe, ele havia se mantido sob a carcaça do lobo.
Difícil, no entanto, foi convencer a todos de que ele era realmente carneiro como eles.

MORAIS DA HISTÓRIA ….

*

Nasceu em João Pessoa-PB em 1966. Vive em São Paulo desde 1982. É professor de formação e jornalista por reconhecimento. Mestre em Letras. Não se considera escritor, mas gosta de escrever e admirar o talento de quem escreve. Gosta ainda de falar sobre política, religião, educação, jornalismo e futebol. É torcedor do Botafogo-PB e do Atlético-MG.

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