Para Descarte

Autor:  Aldenor Pimentel

Não. Diferente do que muitos pensavam e alguns diziam, ele não vivia do lixo.
Neto era catador de material reciclável. Lixo era o que sobrava daquilo que ficava de
fora de sua criteriosa seleção. Cobre, zinco e alumínio, papel, papelão, plástico e pneus.
Nada passava despercebido aos seus olhos. Com pedaços de madeira que encontrava
pelo caminho, já havia até mobiliado boa parte de seu casebre.
Um objeto chamou sua atenção, certa vez. Era um material escuro e resistente,
em meio a jornais e revistas. Pegou-o com cuidado e percebeu que se tratava de um
livro capa dura sem ilustrações. As letras eram minúsculas e exigiam esforço de quem
tentasse decifrá-las. Apesar de uma mancha de café em todas as páginas, o papel
apresentava bom estado de conservação. Neto levou o livro para casa.
Antes de se deitar, à luz de lamparina, folheou algumas páginas, enquanto
jantava uma sopa requentada, como de costume. Sua intenção era saber se o livro tinha
potencial para ser vendido a um sebo ou tão somente iria para a reciclagem. A leitura o
fisgou de tal forma que ele não conseguia parar de folhear a obra. Foram pelo menos
três capítulos em questão de minutos, até que, vencido pelo cansaço de um dia inteiro de
trabalho, adormeceu com o livro nos braços.
No dia seguinte, saiu cedo com sua carroça coletora, mas não esqueceu o livro.
Levou-o a tiracolo e, nos intervalos para descanso, avançava na leitura. Nunca ouvira
falar daquela obra. Não havia como saber se era um título raro, um fracasso de vendas
ou uma publicação marginal. Página a página, Neto se perguntava por que aquilo
demorara tanto para encontrar seus olhos. Não sabia a resposta. Por sinal, nem o livro
lhe trazia resposta alguma; somente questões. Ele não entendia o que tanto o prendia
naquela obra. Talvez o fato de, ao ler, não se sentir preso, mas inexplicavelmente livre.
Muitas palavras fugiam de seu vocabulário. Ainda assim, apreendia, pelo
conjunto, o que dizia o autor. A linguagem era direta e dialógica. O escritor parecia falar
diretamente a Neto. A cada capítulo, fazia-lhe perguntas, às quais Neto se esforçava
para responder, ainda que isso o levasse a novas questões, cada vez mais complexas,
agora feitas pelo próprio leitor. Por vezes, o autor fazia gracejos e ambos, autor e leitor,
juntos, caíam na gargalhada.
O livro falava de um lugar deserto, onde outrora era intenso o tráfego de seres
humanos. Agora só restavam ali animais de carga abandonados pelos antigos donos. O
incrível é que continuavam a ir e vir como se ainda estivessem a transportar pessoas e
mantimentos em troca de capim. Muitos morriam de fome e estafa nessa infindável
viagem. Alguns se davam conta de que não havia mais um dono a chicoteá-los e que só
a eles próprios cabia perseguir alimento e o seu destino. Raros grupos debandavam-se e
descobriam terras férteis nas redondezas.
Finda a leitura, Neto começou a se perguntar se não somos todos animais de
carga a perambular de um lado para o outro sem saber sob as ordens de quem. Pensou
ele que deixar de enxergar que não temos dono e que podemos seguir novos rumos
significa estar fadado a morrer uma indigna morte, antecedida de uma vida não menos
indigna.
Neto olhou para si e para os lados. Não suportava mais ser visto como lixo,
descartado como os animais de carga da história abandonados pelo dono. Estava
disposto a fazer algo; só não sabia o quê. Partilhava suas angústias com os colegas de
ofício. No princípio, ridicularizavam-no: diziam que enlouquecera, que não havia nada a
fazer e que, desde que o mundo é mundo, tudo sempre foi assim.
Mas, aos poucos, o que Neto dizia tocava as pessoas e passava a fazer sentido.
Ele já não estava só. Agora eram várias vozes numa só voz. Passaram a se reunir com
frequência para conversar. Cada vez mais, o grupo crescia. Falavam sobre o que viviam
e queriam. Decidiram tomar as próprias rédeas e traçar novos caminhos. Começaram a
exigir tratamento digno. Afinal, eram trabalhadores cujo labor impedia que a cidade se
tornasse o lixo que seres de passagem produziam sem se preocuparem onde isso ia
parar.
No começo, Neto e seus parceiros apanhavam da polícia. Nas ruas, eram
xingados e acusados de serem os responsáveis pela imundície em que se encontrava a
cidade. Resistiram e, aos poucos, percebiam que algo diferente acontecia: já não eram
invisíveis. A muitos convenceram de que pôr as mãos em detritos não os contaminava,
nem os tornava lixo. Impuseram-se, reinventaram-se e fizeram a cidade reciclar seu
olhar sobre eles.
Tempos depois, uma das estantes de uma biblioteca comunitária do bairro
guardava um livro que falava de animais de carga abandonados pelos donos em um
lugar deserto. Bem ao lado, ficava outro: a autobiografia de um homem que, depois de
encontrar no lixo um livro, reescreveu a história da cidade.

*

Aldenor Pimentel é natural de Boa Vista (RR). Jornalista, poeta e escritor, foi o primeiro colocado no 5º Prêmio Literário Sérgio Farina, categoria Prata da Casa, da Prefeitura de São Leopoldo (RS), segundo colocado no 1º Concurso Literário Internacional ‘Escritores Malditos’, da Editora Illuminare, e terceiro no I Concurso Literário ICBIE 2015, do Instituto Cultural Brasil Itália Europa, além de ter recebido outros 30 prêmios e menções honrosas em concursos literários nacionais e internacionais. É autor das obras Deus para Presidência (2015) e Livrinho da Silva (2017). Mantém o blog O Estado da Arte de Aldenor Pimentel, escreve para a coluna Letras Políticas, do Portal da Escrita, e é colaborador da Revista Pacheco, revista literária on-line. Organiza o Concurso Literário Internacional Palavradeiros, na sua segunda edição.

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