Marcão chegou de mansinho. Raimunda gozava, então… De boa saúde. Ele se achegou, aconchegou-se e adentrou o universo da ingênua Raimunda. Via das dúvidas, ela se aninhou também e foi ficando… Ficando… Grávida de cinco meses. Abandonada, por ele e pela família, adquiriu doença de rico: depressão. Jogou-se num despenhadeiro com os juros de sua inútil vida, toda dentro de si.

– Que investimento mais besta! – disse ao vago da hora.

Ruminava esse pensamento enquanto sentia as dores entorpecidas por uma garrafa de cachaça. Antes de começar a beber, Raimunda leu o rótulo que estampava em letras garrafais: CAXASSA DA BOA! E com a devida exclamação… Bebeu xingando a besta que tinha escrito isso e ainda errado.

Vagabundo! – tergiversou. Como ela, diria a mãe.

Passara a vida sonhando com fadas. Escrevia com todas as forças de seu coração, como dizia Magda, uma de suas leitoras. Só ela a compreendia e a incentivava. A mãe achava que o que ela fazia era coisa do diabo.

– Onde já se viu uma pessoa de letrinhas num papel? Uma pessoa tem que ter alma. Mas, almas de papel? Só a minha filha maluca! – insistia a mãe. Foi ao Padre Gonçalo confessar o pecado da filha, resoluta.

Não tardou, o padre apontou no quartinho apertado e foi logo mandando Raimunda rezar três pai-nossos e duas ave-marias. Foi um bate-boca dos diabos, quero dizer, dos deuses.

– Só isso, Padre? – retrucou a moça.

– Não é lá um pecado tão grande, mas a ignorante de sua mãe me obrigou a vir lhe dar a absolvição, senão não cuida mais da limpeza da Capela. Chantagista!”

– Mas não sou eu que tenho que lhe contar meus pecados?

– Por quê? Tem outro maior? Assim vou perder a faxineira voluntária.

– Estou grávida do Marcão. Ele caiu fora.

– Sem casar?! Oh, meu Santo Pai! Multiplique tudo por mil, tanto os pai-nossos quantos as ave-marias. E cuide bem do pequeno órfão de pai.

– Mas, se eu fosse casada, não seria um pecado maior?

– Mais do pai, que considerou o filho um ser abandonável.

– E se eu abortar, o pecado não será maior do que maior?

– O que é agora?! Está querendo me confundir? Além de escrever e inventar alma de papel, como diz sua mãe, sabe interpretar melhor as escrituras do que seu confessor? Pois pode multiplicar tudo por dois mil.

        – Ora, nem Jesus faria uma multiplicação dessas. Ele só multiplicou os pães para os esfomeados e disse que a gente só devia crescer e se multiplicar. Ele não falou nada em casar.

        – Esqueceu-se de que ele multiplicou também o vinho e, justamente, numa festa de aniversário? – esticou o homem santo, titubeando, ainda sem entender aonde Raimunda querida chegar.

– Dá licença, Padre. O senhor trocou até o evento… Era uma festa de casamento, mas ele estava se divertindo e, cá entre nós, ficar sem vinho numa hora destas! E tem mais, ele nunca mais falou sobre esse assunto de casamento. Acho que é porque sempre falta alguma coisa. Nunca ouvi ninguém elogiar uma festa, principalmente, de casamento. Ou a noiva está feia, ou a comida está ruim ou…

– Ah, quem tem que me dar licença agora é você. Eu hein?! Louca imunda! – o Padre saiu pisando duro.

Raimunda olhava o mundo como se estivesse acima das nuvens. Criava o seu universo e nele governava absoluta. Dona Magda adorava o que ela escrevia e sempre, além de uma quantia em dinheiro, trazia roupas novas ou uma maquiagem. Era uma leitora especial. Ao descobrir que ela vendia as suas histórias a uma escritora de verdade, a desilusão foi demais. Pegou-a pelos cabelos e lhe deu dez tapas na cara. Como era justa, cinco em cada uma das faces. Isso, sim, achava que Cristo aprovaria.

A polícia lhe deu razão e ainda indiciou Dona Magda por violação de direitos autorais. Mas o povo não perdoa. E em termos de povo, o Brasil é número um na desclassificação do seu povinho. Aliás, a maioria não sabe nem ler. Agora, além de uma louca imunda, pois inventava gente com alma de papel, era uma safada vagabunda, pois seria mãe solteira. Já fizera até um poema sobre a cumplicidade entre seu nome Raimunda e suas rimas. Nome fácil de rimar até com palavrões. Que pena que sua leitora era também uma farsa, oriunda dessa gente que feria a sua imaginação tão fecunda e que machucava sua alma, de uma honradez profunda.

– Que licença poética é rimar em uma prosa! – pensou, suspirando. Não daria a ninguém a satisfação de assistir ao seu sofrimento. Era pessoal e intransferível o seu livre-arbítrio, e que a desculpassem pela evidente redundância do escrito, mas isso também era só da sua conta.

Então, fez o que julgava a coisa certa e voou no seu precipício. Sempre quis ser um pássaro. Morreu feliz, morreu poeta. Tudo agora era só dela: sua vida e sua morte.

*
Alessandra Barcelar é historiadora, vive em São Paulo, onde nasceu e atua na área da Saúde. Colaborou para revistas de literatura como Amálgama e Revistas Luso-Brasileira. Participou do laboratório de escrita criativa com Evandro Affonso Ferreira. Atualmente integra o projeto de leitores voluntários no Instituto de Infectologia Emílio Ribas e Elaboração de Projetos Sociais no Senac.
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